Quatro ‘mínimas ficções’ de Ana Marques Gastão

bala

Cada batida do coração arrasta mais sangue. Não adianta descalçar os sapatos nem o gemido os abriga desse líquido espesso escorrendo pelas pernas. Nem mesmo. Nem mesmo vivemos algo semelhante a um romance vitoriano. Somente este não-sono profundo e forçado, o medo pisando folhas caídas sob o céu azul.

lírio

És uma lonjura sem nome, um lírio numa sebe de cactos.

clarão

A luz é poeirenta, magra. Vejo-te, vacilante, num voo rasante sobre as águas. Ao entrar em casa, detenho-me num clarão de contorno nítido. No quarto, vivem, silenciosas, estrelas-cadentes; no exterior o céu não se desmantela, vela por mim. Quando acordo, verifico que interior e exterior são afinal o mesmo tecto.

cintura

Deixo-te ir, dizendo palavras inabitadas, tenebrosas. Sou caruma, vento violento, borboleta esvaziada pela malignidade. Procuro, em minha perplexidade de asa, um outro coração. Na avidez do golpe, caminho com água pela cintura. Desapareço.

[in lápis mínimo, Oceanos, 2008]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges