Quatro poemas de António Barahona

CORRESPONDÊNCIA COM SOHRAB SEPEHRÍ

Nasci na Andaluzia:
o meu sangue vem dos tempos do Profeta
e continua a fluir na consciência da brisa.
Ibn Arabí estudou numa madrassah em Lisboa.

Sou muçulmano:
o meu mihrab é uma rosa vermelha
ou um ventre de mulher adormecida
e, o mundo inteiro, o meu tapete de oração.
Faço as abluções com fogo refrescante.

Cada partícula, do que rezo, cristaliza,
quando o vento de vidro
chama os fiéis do alto do cipreste.

***

CORRESPONDÊNCIA COM IBN ZAYDUN

Serenidade tão desencantada
d’Ibn Zaydun, um bom poeta eleito,
que leio e releio com respeito
e d’alma deslumbrada.

Serenidade vinda dum olhar
azul, que lhe furtou o coração,
devolvido depois, mas só no som
do seu êxul cantar.

E cantou o pescoço da donzela
que atraía as pérolas, tal como, perto,
a água atrai camelos no deserto
e a sedenta gazela.

E cantou o pudor que lançou luz
sobre a fatal beleza feminina,
que, nua, se mostrou nessa menina,
ao poeta andaluz.

***

CORRESPONDÊNCIA COM MÁRIO CESARINY

Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos
À luz do vidro e do metal
mato pulgas de oiro azul
em homenagem ao António
Maria e dele me despeço
Já ganhei a idade das barbas:
agora sou um barbo
a ‘violinar’, como diria o Herberto,
o rio poluído
Toco no fundo
‘o botão entre os limos’,
Mário,
mas ‘olho muito depressa como se fosse de moto’
e não posso em ti deter-me por mais tempo

Acelero a lucidez,
a alâmpada e a luva:
a estrada é muito larga sob a chuva,
o meu chapéu de sol acende a água:
intensamente álacre a minha mágoa
recusa-se a ser triste
e desço ao inferno
como Dante
pleno de esquizofrenia
e alegria

Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos,
de todos me despeço,
dos novos e dos velhos
e solitário amanheço

***

ADVERTÊNCIA

Poeta
em verdade em verdade te digo
que, para ser genuíno e ficar vivo,
em glória corporal, não apenas em livro,
é-te necessário morrer primeiro que tudo
na Grande-Guerra-Santa dedicada ao estudo
da grã fonética de mil murmúrios
e do vôo das aves, pródigo em augúrios.

[in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges