Quatro poemas de António Carlos Cortez

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Com as mãos fechadas tropeçamos
nas palavras que nem chegam à boca inteiras
Serão elas verdades ilusórias
ou ainda as coisas verdadeiras:

Objectos presentes do passado
em que molhamos as mãos primordiais
Objectos tão abjectos quando somos
o único presente e nada mais

Vertiginosamente recordamos
como foi beber do amor a sua água
Mas por que é que cerramos as mãos
como quem fecha os olhos?

Porque nos fascina o vidro do Inverno
os livros as roupas os corpos já ardidos
assim que novamente respiramos
o tempo em que fomos iludidos

Como fechamos as mãos ao amor
quando ele vem de madrugada e reacende
o tempo que era o nosso e o tremor
do instante em que tudo se concede


AS PERDAS OS GANHOS

Este não é o poema que eu gostaria de ter escrito:
tudo no fundo se resume no poema
à soma dos ganhos e das perdas
afinal tão semelhante à vida é esse jogo
de querer um verso que dissesse tudo
e nada mais dissesse


LUZ BRUXULEANTE

A luz que é minha não vem de Sena
que a dele era esperança ou coisa assim

A luz que trago é escura e por sistema
é uma nostalgia de outra luz em mim


HUIS CLOS

A criança brincava e os seus olhos azuis
ignoravam o tempo que passava
Respirar não era sinónimo de escrever
e o peso do Inverno
girava naquela roda onde a criança
se adivinhava Escreveste mais tarde
o que estava já inscrito nessa imagem

A roda onde a criança brincava
sabia que era o tempo que passava

[in à flor da pele, Casa do Sul, 2007]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges