Quatro poemas de Arménio Vieira

Apaga as escrituras todas. Se a missa ou o sino de qualquer igreja chegarem aos teus ouvidos, o que ouves é apenas o vento a sacudir os ramos, é um velho boi ruminando sempre a mesma palha. Em ti há um marinheiro demandando uma ilha onde ninguém ainda esteve. Também em ti encontrarás o mapa, a bússola e o navio. Há coisas a que não deves atribuir nomes. A tua ilha não tem nome.

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Entre duas frutas, uma das quais é só pegar, sendo que um pássaro, voando, alcança a outra, prefiro aquela que, alta, uma nuvem oculta.

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Plotino, de quem herdámos os nove tomos, que também de Platão herdara os arquétipos, cujo número só é pouco quando oposto ao que não tem medida, Plotino, conquanto ninguém se lembre, subiu aos vários céus, que são nove vezes nove, sem que em nenhum visse a luz, tal como Dante, que viu Beatriz sem ver a Deus, sendo que da Trindade em Platão nada consta. Teseu, no labirinto, esse viu o Minotauro.

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De sonho em sonho, chega ao Inferno o sonhador, sendo que, ao despertar, se vê no meio de uma briga de assassinos a que é de todo alheio, da qual porém não acha via de fugir, e assim se arrisca a morrer ou a ter que matar, eis a sina de quem, sonhando muito, nunca cessa de viajar entre um inferno e outro inferno.

[in O Poema, a Viagem, o Sonho, Caminho, 2009]



Comentários

One Response to “Quatro poemas de Arménio Vieira”

  1. Gerana Damulakis on Novembro 13th, 2009 1:31

    Excelente poeta. Ele ganhou o Camões. Foi, sim, lembrei que o poeta Ruy Espinheira Filho fez parte do júri e me falou sobre Armênio Vieira. Li, na época, alguns poemas e até fiz uma postagem.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges