Quatro poemas de Arménio Vieira

LISBOA – 1971

A Ovídio Martins e Oswaldo Osório

Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.

Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela

Em verdade éramos o gado mais pobre
d’África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d’onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.

Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d’inverno.

***

Graças dou por Bento Spinoza
e também por Mallarmé,
já que ambos, em seu tempo
e seu lugar, viram o que jazia
oculto sob a máscara da Esfinge.

Sem se importar mesmo nada
com a maldição lançada pelos
rabinos lá do gueto, um judeu
de olhos meigos como as rolas
percebeu que os rios, o mar
e o firmamento não são meros
algarismos em que o Número
se divide, pelo que se torna
redundante dizer que há Deus e Natureza.

Esse ponto em que o texto como um rio
se desdobra e, nítido, surge o poema,
só se vê num mapa que Mallarmé doou
aos filhos que teve com a Musa.

***

Não há guarda-chuva, João,
contra o suão que em Setembro
é uma vespa mordendo
como se para o martírio
não bastasse o calor e a secura.
Tão duro é o suão
que, embora não tenha um som,
se porventura o tivesse,
jamais seria o som
da chuva, que, ainda que molhe
e mate, nunca mata queimando.
Quiça o som de uma pedra
noutra pedra batendo,
talvez fosse esse o som
se acaso o suão, que é mudo,
soltando-se, soasse.

***

CONSTRUÇÃO NA VERTICAL

Com pauzinhos de fósforo
podes construir um poema.

Mas atenção: o uso da cola
estragaria o teu poema.

Não tremas: o teu coração,
ainda mais que a tua mão,
pode trair-te. Cuidado!

Um poema assim é árduo.
Sem cola e na vertical,
pode levar uma eternidade.

Quando estiver concluído,
não assines, o poema não é teu.

[Textos retirados de uma antologia, ainda inédita, organizada por José Luiz Tavares]



Comentários

4 Responses to “Quatro poemas de Arménio Vieira”

  1. Ivone Ralha on Junho 9th, 2009 13:25

    Boa! Gostei.
    Não conhecia nada… mas nada de nada… agora vou procurar.

  2. Gerana Damulakis on Junho 9th, 2009 14:36

    Estou levando para o meu blog um dos poemas de Arménio Vieira que encontrei aqui a fim de noticiar o Prêmio Camões que Ruy Espinheira Filho, grande poeta baino e meu amigo, foi jurado semana passda. Agradeço, portanto. E gostei muito do seu blog. Passarei mais vezes.

  3. Rui Almeida on Junho 9th, 2009 18:35

    Também coloquei uns quantos poemas de Arménio Vieira lá no blog ( http://ruialme.blogspot.com/2009/06/premio-camoes-ler-aqui-e-ouvir-aqui.html ) e comecei também a minha micro-antologia com “Lisboa – 1971″, q é um poema muito significativo.

  4. Prêmio Camões « Autores e Livros on Junho 11th, 2009 4:39

    […] No blog de José Mário Silva, Biblioteca de Babel, há quatro poemas de Arménio Vieira. Leiam aqui. […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges