Quatro poemas de Frederico Pedreira

Obediente turvado o tronco vai solto
repete endurecimentos abaixo da cintura
faixa de vento descobre a rosa clara ao meio
abalroa o tronco queimado
ainda a escuta atenta a fumigações
o ar recusado perdendo aos poucos o pulmão

***

Remexe as ameixas podres em volta
com a cabeça encaixada no frio de um tanque
a tua coroa no fio
escuta só a música prolongada
reverbera nos dentes essa armadura
que faz tremer o cimento do coração

***

a teia de vidro que te traz a memória
e te rompe os buracos mais escuros
a tua boca escavada como a ruína conhecida
onde faz aquela música de asas doentes

a memória engrossa com febre
mostra a contragosto um olhar de passagem
sem nenhuma arte sem roupas
sem saber melhor forma de
dizer adeus

***

CONSERVAÇÃO

É sempre com este medo de dizer
que me apresento, na vergonha
de umas mãos metidas para dentro
à procura desse abismo de pele
côncavo e azul.

Ando à escuta
de um rosto que aprendi
a lembrar no oco das paredes,
húmido como barro, guardado
entre ossos muito limpos.

Sei de algumas coisas: que nunca
sobreviverei perto de ti com um
punhado de metáforas de inverno,
que vou andando voltado para trás,
e só confio na mancha do meu sopro.

[in Doze Passos Atrás, Artefacto, 2013]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges