Quatro poemas de Henrique Manuel Bento Fialho

ADÃO A EVA

Não temas a trovoada,
o aconchego do relâmpago.
Senti-la aqui tão perto
é um regalo a poucos concedido.

Se a casa tremer,
lembra-te que não é de medo
nem do frio das paredes.

As casas só tremem
porque estão de pé,
fundadas na terra que recebe
as ossadas dos relâmpagos:
as trovoadas.

Não temas os mortos
nem o aconchego dos vivos,
nem deixes morrer nos vivos
as trovoadas que fazem tremer
as casas.

***

ERNESTO SAMPAIO A FERNANDA ALVES

Não temos mão na treva –
fio de lama que escorre
à superfície da pele,
acusação afectuosa
de um brilho esmorecido,
morte trespassada
de anúncios que nos embalam
à hora de adormecer os ninhos.

Viemos do nada, errámos
pelo corpo como a força
de uma raiz exaurindo o caminho
que vai dos tímpanos ao coração.

Por isso palpitamos
e tememos e agimos.
Por isso resgatamos num sopro
a explicação das pontadas.
Por isso dizemos ser o mundo
esta treva e nós a luz que destoa.
Por isso contrabandeamos paixões,
consentindo no insulto que é dizer:
amo-te.

Não sei quem és. Não sabes quem sou.
Somos apenas alguém à espera,
fantasiando o absurdo da vida,
crentes de que um dia o nada de onde vimos
possa tornar-se o tudo para onde vamos.

***

CESARE PAVESE A TINA PIZZARDO

Onde os pássaros fazem o ninho
e debicam os pulsos,
onde as crianças constroem casas
e afinam os dentes,
onde as marés arrebatam as luas
que o desejo renova,
onde um dia eu disse
que viria a desfalecer,
onde um dia no chão,
sob um manto de estrelas
a caírem do céu,
onde um dia no terraço,
onde um dia na cama,
onde um dia na mesa,
na praia, onde um dia
num vão de escada,
onde um dia no elevador,
na banheira, no sofá,
onde um dia cozinhámos a história
que ficou por acontecer.

***

SYLVIA PLATH A TED HUGHES

Dobra bem os versos por baixo do colchão,
estica a pele até ao ponto de rasgar.
Depois areja os nervos, os músculos,
tudo o que puderes fazer sair de dentro do corpo.

E com as palmas das mãos inscreve
a ansiedade que te escorre dos poros
neste espelho de cambraia quase invisível.

Tenho uma flor à tua espera, uma ferida
nos sulcos do meu ventre. Vem regá-la,
colhê-la, faz com ela o arranjo da refeição
que agora termina e de novo começa.

[in A Dança das Feridas, de Henrique Manuel Bento Fialho, edição do autor, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges