Quatro poemas de Inês Lourenço

BERCEUSE

Canção de embalar é talvez
demasiado melódico e além disso
um desuso. Já ninguém canta a adormecer
os filhos. Coisa imprópria para o crescimento
de criaturas autónomas
e hiper-activas que devem fugir
ao sedentarismo e à obesidade.
O Canal Panda faz isso muito melhor
ou qualquer brinquedo mecânico e perfeito.

Também já ninguém canta
nos lavadouros públicos ou nos campos. Os
únicos campos onde se cantam as brumas
da memória
são os estádios. Os
pedreiros deixaram de cantar à pedra:

Hou! pedra, hou!
Hou! linda pedra, hou!

e as canções de trabalho (uma espécie
de berceuses da fadiga) passaram
a matéria etnográfica. Por isso os
estudantes de português já não entendem
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura
ou
Sete anos de pastor Jacob servira.

Mesmo o Schöne Müllerin do Schubert que
se ouve ainda nos concertos clássicos
com vaga subserviência patega
(porque em alemão, não se percebe nada),
só os amantes do lied reconhecem.

E se percebessem?
A moleira já não seria schön
e não teria 80 anos, bem bonito rol
como a de Junqueiro,
pela estrada fora, toc, toc, toc, mas agora reclusa
numa casa geriátrica, em contagem crescente
da inacção.

Muito pouco,
tão pouco, para um mundo
embalado na pesquisa espacial
de água em Marte.

***

NEVE NAS TERRAS ALTAS

No Inverno sempre
neva com intensidade no maciço central. Muitas
estradas de acesso à Torre estão interrompidas. Os enviados
da televisão aparecem nas reportagens de gorro e gola
levantada a entrevistar os habituais
excursionistas.

Mas, da neve recordo um filme
português onde se viam crianças com
um prato de neve na mesa. Vi-o
num verão de Lisboa, numa sala de estúdio climatizada.
Os parcos espectadores
estavam enregelados, vestidos para o estio e a sofrer
civilizadamente aquele frio real e diferido.

Que mais me lembra a neve?
Talvez o meu pai a pôr pedaços
de algodão-em-rama, num galho alto
do pinheiro de natal. Ou o rio
Neva, em S. Petersburgo, perto da casa
de Puskine onde gritei Cesário:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo,
o Mundo.

O resto é branco ou banal.

***

FELINUS

A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.

***

RECADO A UM JOVEM POETA

Continua agreste para o mundo
e conforta-nos com a lucidez
do teu desconforto, nas palavras
de todas as horas, limpas de
hemorragias órficas. O novo Castelo
de Duíno (ou outro qualquer)
é um terceiro andar, sem ascensor,
onde Lou-Andreas-Salomé deixou
de velar com elegância
a angústia.

[in Coisas que Nunca, &Etc, 2010]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges