Quatro poemas de Joaquim Cardoso Dias

OS MORTOS

o que dissemos ontem aos mortos
talvez agora com menos amigos
seja a floração daquela memória
pesando nos ombros
para que os dias aconteçam
cada vez mais lentos
mas tudo recomeça
por me deitar contigo
deixar a luz acesa
e esperar muito que pare de chover

***

SERVIÇO DE ESTRANGEIROS

há tanto tempo que não acreditamos em nada
e nem sequer nos lembramos disso
sou apenas uma criança brincando
erguendo a recordação de uma nova pureza
o primeiro pássaro
esse peso de árvore tão feliz por engano
olha confio-te o meu coração
e trago-te esta comida estas palavras com o tempo
dos dedos
a casa onde a terra começa a viver

***

AS FOTOGRAFIAS SUJAS

conhecemos esse sortilégio fugitivo das vozes
as palavras lembradas pelos animais sob um céu imenso
vimos essa essência novos poemas
restos de ossos e de fogo indícios onde os braços
doem perseguidos pela melancolia
sabemos o azul das t-shirts no verão até perder o fôlego
e uma cama para foder o mundo
ou essa forma sublime de cuspir nos outros
e queremos ser felizes
com a máquina de barbear do irmão mais velho
e o que nos falta
é a coragem de compreender o que sabemos
como a chuva dentro de casa
demasiado transparente sobre os ombros

***

THE SCIENTIST

da via rápida os prédios parecem felizes
batendo na luz com esta música
nem se sentem os motores
muito menos ficar a olhar as árvores
e em câmara lenta a velocidade
é a verdadeira faca do sémen
a poucos segundos da civilização
fiel à morfologia dos outdoors
que separa de mim a minha própria pele
pagamento de juros no final do prazo
saiba tudo aqui ferido pelas paredes
e eu não conheço outras palavras
para tantas instruções de salvamento esquecidas
sem deuses na loucura
morder o coração perder a cabeça adormecer os prédios
e os anos passam todos os dias
e não somos felizes para sempre

[in Pornografia Comum, Gulliver, 2015]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges