Quatro poemas de José Emílio-Nelson

EPITÁFIO

Dum cesto de flores carrega a púrpura.
Da noite o ar rouco.

***

CHAFARIZ

Peixinhos da cinta aos pés
Num chafariz até ao umbigo.
E vermelhinhos
Nadam na sua doçura para o aquário cristalino. E tanto faz
Se depois são enxugados com pano cardinalício
Ou cinza de incensário.

***

IMOLAÇÃO

A perdiz ao dar voltas em círculos sacudidos,
A cair lançada para dentro das
Penas coloreadas, enceguece
A glaseada mão do caçador.

***

MINA SAN JOSÉ

Rezo pelos mineiros chilenos.
As almas soltando labaredas de El Greco.
Ciclopes à espera de subirem ao céu azul pelos tubos dum
órgão de luzes que os ressuscita no sepulcro.

Estes mineiros extraem Deus.

[in Pesa um Boi na Minha Língua, Afrontamento, 2013]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges