Quatro poemas de José Emílio-Nelson
SOBRE O SÁTIRO
Desprende de si os chifres da cabra
Com que cobre a cabeça que uiva.
A carne descarnada
Fez-se músculo. E fez-se brilho.
Reconhece nas águas lúgubres o calcanhar
Que pisa o «falso engano».
Suporta o balanço do esperma como se fosse incenso.
E enfia um olho no fundo das nádegas, outro na testa.
A cegueira não o ajuda a ser
Animal para uma fêmea tremulante.
Raspa, alisa sem descanso, arredonda o que se faz odre.
E no vaso da ostentação enfia o farto couro da cabra.
Cresce-lhe o «grito feminino» entre as pernas marcadas de dureza.
(Não haverá velório para o corpo amputado do seu pénis, seta de cetim.)
Espera em Sodoma que o venham recolher.
***
ROXO
Resplandecente, e resplandece.
É esplendente o «lírio roxo»,
O tom escuro raiado de carne crua, a cor apodrecida,
Roxa carne vomitada em cima da carne roxa nos seus novelos.
Aí não há quem não a inale.
Vem com cuidado «à menor parte» do corpo, e alegre.
Cega olhar a jóia roxa, a alegria.
***
QUAL TULIPA?
Vês a tulipa rude
Quando outra boca a abandona.
À sua pele aveludada, cintura fina,
Quase a mordes.
A essa tulipa crua, ao esmagá-la,
Não lhe escondes o odor. (Jorra, esguicha.)
Abre-se por dentro, lançada fora.
A desatenção solta-se, lágrima sã de odorosa.
Da embriaguez, não é outra coisa, rude, crua.
***
SOBRE O ANDRÓGINO
Aquele a quem confio o coração e o trafica
Aparece com o rosto maquilhado
Da cor que não se distingue dos ossos
Com que me castiga o dorso.
E como um sopro que toca a luz
Deita-se de joelhos na nuca,
Serve a carne num banquete.
(Tem tanto de si em mim perdido — velha crença —
Que esqueço o que sou.)
[in Ameaçado Vivendo - Obra Poética II (2005-2009), Afrontamento, 2010]
Comentários
One Response to “Quatro poemas de José Emílio-Nelson”
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A minha ignorância e terrível. Desconhecia esta preciosidade. E nascido no meu distrito. Imperdoável. Obrigada, José Mário.
Não resisto a partilhar no livro das caras (trad. google)