Quatro poemas de José Ricardo Nunes

K8 COM TIMONEIRO

Depois atiram-me à água:
o justo prémio da vitória.
As minhas indicações, a cadência
que doseia o esforço e assegura a velocidade
e faz dos meus companheiros comigo
um só músculo contraído,
espalham-se na água
logo que a prova termina e é conhecido
o vencedor. Eu
apenas trabalho para essa equipa:
ocupo os espaços vazios,
os intervalos,
as pequenas falhas
entre corpos e músculos,
moldáveis, eu, a minha voz,
até que tudo acaba
e me atiram para a água,
para dentro desta página.


O TESTEMUNHO

Os aplausos e os gritos da turba descontrolada
sobrepõem-se às palavras que faziam corpo
comigo na solidão dos caminhos. As coisas
já não exigem as suas palavras.

Desculpem-me o desabafo.
E é tão deselegante, bem sei, chamar poetas
para aqui, ainda para mais os que ficaram
fechados em livros, no desamor do esquecimento.

De resto, revelei-me incapaz de passar despercebido –
eu que apenas sou mencionado
quando o atleta se descuida e falha a transmissão
ou me deixa cair a meio da corrida.
Mais forte do que eu, simples
tubo metálico de fabrico em série.

Já fui invólucro de ordens, notícias,
mensagens que se transformavam
em acontecimentos assim que eram destruídas.
Relegado de vez para o desporto,
passo agora vazio de mão em mão
pelas pistas dos estádios.


TRAMPOLIM DE 20 METROS

Todos aplaudem os movimentos
que executo ao voar da prancha
para a água. E creio que são merecidos.
Procurei a perfeição em longas horas
de frio e solidão. Treinei
vezes sem conta o triplo mortal,
os mortais à retaguarda, os empranchados.
Decido como quero o meu caminho
até à água e entrego um exemplo
aos que assistem e sonham ao contrário,
lamentando o tempo perdido e a obesidade.
Rasgo o pano líquido – navalha
afiada, inteiriça, mas com medo do sangue.
Depois subo à superfície
para receber os aplausos e ouvir os elogios,
embora me mantenha atrás duma cortina.
Ninguém sabe o que se passa dentro
de água, como simulo
aí reter-me, tocar no fundo, permanecer
no fundo o máximo de tempo possível.


100 METROS MARIPOSA

Deito os braços à água
e a água escapa-se e o corpo
segue em frente, imunizado
contra o sonho instável da água.

Braçadas difíceis, confesso:
a imagem dissolve-se
e depois é só água
e na água não posso escrever.

[in Versos Olímpicos, Deriva, 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges