Quatro poemas de José Rui Teixeira

Os filhos são insectos de alabastro
nas noites de insónia das mães
e os telhados deslizam para a parte
da frente das casas, anunciam a ruína.

Há dias em que os pressentimentos
perseguem-nos como cães, as noites
de verão, as prensas nos dedos,
os úteros dentro das mães.

Foi a tua morte que explicou a casa,
o modo como se dispõem geometricamente
as rosas sobre a terra.

***

Pousado no arcaz o fogo, como nas mãos de Caim,
o âmbar, os pântanos, os plátanos, um planisfério
encostado à superfície inclinada de um alpendre,
a tensão gravitacional dos pés de uma criança
na periferia de um poço, a abstracção do perigo.

***

Amo-te como buganvílias caídas ao redor
das casas ou o luar branco dos caminhos,
ou a substância audível da tua respiração.

***

Apercebi-me mais tarde de um campo magnético ao redor
da ideia de casa. Imaginei que gravitávamos em órbitas
definidas pela proximidade dos corpos e dos afectos. Éramos,
no entendimento que eu tinha das coisas, representações
coloridas e tridimensionais no interior da casa, como se o fogo
mantivesse os predadores à distância informulada da luz.

[in Diáspora, Cosmorama, 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges