Quatro poemas de Manuel A. Domingos

Uma mulher
grita
contra um gafanhoto

Uma criança
mostra
um desenho ao avô

Uma andorinha
faz
o reconhecimento

dos telhados

***

SONETO #3

Gosto de fazer
a barba enquanto
no duche cantas
um qualquer samba

que sabes de cor
Eu de cor só sei
um ou outro verso
que aprendi na escola

mas confesso
que isso agora pouco
ou nada importa

Cortei-me e não há
verso capaz
de estancar o sangue

***

Não adianta
pensar nas coisas
na sua mecânica

por menos caiu
Tróia e Jericó
viu as suas muralhas
no chão

Abre a janela
respira o ar
antes que seja tarde
ou o dia passe
ao largo
dos sentidos

Sai à rua

Podes nem
acreditar

há vida
para lá de tudo
isto

Mas caminha
com cuidado

não vá
uma andorinha
cagar-te no ombro

***

João de Deus
não te ensinou nem
as primeiras letras
nem os primeiros
versos

e dele só ficaste
a saber – pela voz
do teu pai – que um curso
de três não se faz
em nove

Isso foi antes
de ganhares a primeira
bolsa de criação literária
e passares parte
do dia na esplanada
a olhar as pessoas
passar

de pouco serviu

preferiste
escrever sobre fantasmas

em vez de tremoços
e cervejas

Chegaste a ensaiar
uma teoria
sobre os malefícios
da poesia
que te levou
a fumar muitos
cigarros

pensar cada vez mais
na morte

Depois veio
o merecido prémio
e passaste a integrar
mesas redondas

colóquios

[in Teorias, edição do autor, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges