Quatro poemas de Maria Teresa Horta

TUA ESPIA

Sou tua espia
Sou tua neta
Tua vigia

Sou tua asa
Sou tua guia
Tua passagem

Crio-te a fresta
Abro-te a porta
Teço-te a aura

***

RETRATO

Tinha uma silhueta
esbelta e quebradiça

O desassossego
no espelho das palavras

Olhos de anil
a boca indefinível
Andar audaz de culpa recusada

Tinha um trejeito
de pressa leve e esguia

Odes, sonetos
sonhos, verso e lava

Tinha paixões
que sempre rasurava

***

INFÂNCIA

Tabuinha de carvalho
menina de pulso
fraco

Língua de ouro e anis
branca de pele
e de nardo

***

PARTIR

Não sei
se te deixei partir

Mas num segundo
já não estás na minha mão
nem à minha frente no papel

Ficando eu sem saber
quem eras
quando te encontrei

Se o retrato que de ti
tracei te é fiel

Ou se de tanto te inventar
eu te perdi, por entre
as florestas das histórias

Penumbras dos palácios
Pensamentos, poesias e diários
Oceanos e ventos

Pois nem sequer
percebo se por mim
te afastei ou te larguei

Se obstinada fugiste
ou te esqueci
Se a Torre onde te pus é de Babel

E dela partirás
para viver a única
paixão da tua vida

Não, nem sequer sei
qual foi o meu olhar
pousado em ti

Se com ele te espiei
te persegui
E no espelho onde te vias

Eu te olhei

[in Poemas para Leonor, Dom Quixote, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges