Quatro poemas de Mia Couto

O BAIRRO DA MINHA INFÂNCIA

Não são as criaturas que morrem.

É o inverso:
só morrem as coisas.

As criaturas não morrem
porque a si mesmas se fazem.

E quem de si nasce
à eternidade se condena.

Uma poeira de túmulo
me sufoca o passado
sempre que visito o meu velho bairro.

A casa morreu
no lugar onde nasci:
a minha infância
não tem mais onde dormir.

Mas eis que,
de um qualquer pátio,
me chegam silvestres risos
de meninos brincando.

Riem e soletram
as mesmas folias
com que já fui soberano
de castelos e quimeras.

Volto a tocar a parede fria
e sinto em mim o pulso
de quem para sempre vive.

A morte
é o impossível abraço da água.

***

FRUTOS

A bondade da mangueira
não é o fruto.

É a sombra.

A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.

Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.

Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.

A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.

O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore

A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.

Para o homem
vale a polpa.

Para a terra
só a semente conta.

***

NÚMEROS

Desiguais as contas:
para cada anjo, dois demónios.

Para um só Sol, quatro Luas.

Para a tua boca, todas as vidas.

Dar vida aos mortos
é obra para infinitos deuses.

Ressuscitar um vivo:
um só amor cumpre o milagre.

***

TRISTEZA

A minha tristeza
não é a do lavrador sem terra.

A minha tristeza
é a do astrónomo cego.

[in Tradutor de Chuvas, Caminho, 2011]



Comentários

2 Responses to “Quatro poemas de Mia Couto”

  1. Olinda Melo on Março 19th, 2011 14:14

    Grande Mia Couto! Vou levar um destes poemas comigo.

  2. Manuel Cardoso on Março 19th, 2011 14:50

    Mia Couto é um dos maiores poetas da literatura actual. O que me fascina nele não é, no entanto, a poesia propriamente dita; é a liguagem poética da sua prosa. Tenho muitas dificuldades em encontrar adjectivos para a linguagem maravilhosa que ele usa em Jesusalém, A Varanda do Frangipani, etc.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges