Quatro poemas de Miguel-Manso

ANTIMUNDO

Para o João Diogo

plágio manhoso do big-bang
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo

o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia

oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura

poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência

e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse ‘dia inicial inteiro
e limpo’ que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída

resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente

a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa

a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: ‘tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos’

um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi

***

PIAZZA SAN MARCO – ACQUA ALTA

às Musas não interessam
drenagens, deixam alagar livremente
com o que sobrevém: a água do instante
subjectivo

quando o poeta era uma fera luminosa
e Veneza, sobre a laguna, a porta para o Levante
com seu tráfego de peregrinos imateriais – que também traziam
as laranjas douradas, a seda, a musselina
porcelanas, aço, pimenta
incenso e alívios

a cidade detinha um colégio de sábios
que sabia, em dialecto próprio, ser a magia
este palácio mergulhado nos silêncios
meio submersos

e que apenas a ciência da leitura paulatina
poderá ser o escafandro glotal e sinal que soltará
da grosseria eloquente

o espanto oculto do poema

***

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***

NEM TANTA COISA DEPENDE

preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama: a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê) outro poema

[in Ensinar o Caminho ao Diabo, edição do autor, 2012]



Comentários

2 Responses to “Quatro poemas de Miguel-Manso”

  1. V G Moura on Abril 12th, 2012 22:07

    Tenho uma amiga, minha plenamente, que, de tão inferior, embora se ache esbelta, se emprenha por vezes de palavras, banais, de lento fulgor onírico. Foi, ela em dia festivo de sensações, uma suficiente, embora nefasta, conselheira. Deu-me, imerecidamente em meu entender, o conhecimento, fugidio e tardio, deste seu, misericordioso e telúrico, blog. Quero, desta forma, quase vazia de palavras, prestar um, embora perene, elogio, em palavras, embevecidas de agrado, sentidas. Que o pleno, belo e redondo, se aninhe, animadoramente, de forma continua, e resoluta, dando vida, longa e flexível, a esta sua ideia, de palavras e imagens, já feita. Para continuar, sempre, obreiramente. Haja por bem!

  2. Paulo Seara on Abril 18th, 2012 16:33

    Uma descoberta poética onde vou fixar um nome. O poeta fez bem em autoeditar-se, e não tem nada de mal faze-lo, fora das editoras de autoedição, pois temos tradição.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges