Quatro poemas de Miguel-Manso

TÚMULO

para uma compreensão
mineral do poema
permanecer sempre
no mesmo sítio

***

A BASÍLICA DE NOTRE-DAME DU SAINT-CORDON

Na cidade de Valenciennes, no norte de França, há uma pequena basílica do século XIX que mais parece uma peça de barro lambujada, ou um desses montinhos de areia molhada que erguemos à beira-mar. Tem o aspecto de um sólido que liquesce devagar, as arestas boleadas, os elementos esboroados, tudo ameaça desfazer-se a um breve tocar e não resta outra solução que não seja impedir as pessoas de entrar, esperar que de uma vez por todas o monumento se esfarele. A razão de tudo isto é evidente: o uso, na construção, de uma pedra imprópria para templos que se querem pelos tempos.
Olho a fotografia de dois amantes, abraçados, sorrindo-se, com a Notre-Dame de Valenciennes em pano de fundo. É o começo do Outono, a julgar pelas roupas, o chão molhado, a cor do céu. A basílica, creio, ainda lá está, nessa cidade desengraçada e triste que nenhum turista, com o juízo inteiro, se lembrará de visitar duas vezes. Demoliram primeiro que tudo os amantes.
À fotografia guardo-a de novo, mas agora mais fundo dentro da caixa.

***

A QUEDA

para a Catarina Barros

resta, de Agosto, esta fotografia
iluminada

onde tudo permanece ainda no lugar:
a boca no artifício dos sabores
a lentidão dos açúcares
mãos suadas dissipando pântanos
interiores
pernas brancas, vestido colado ao clima
dessas pernas
o cio vibrante do Astro, por cima
por baixo, umas sandálias

às primeiras evidências outonais
levantaram as esplanadas

***

NA MORTE DA AVÓ

não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se

a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem

no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de

Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
– é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida –

depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante

o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia

como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia

a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez
da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota

[in Santo Subito, edição do autor, 2010]



Comentários

3 Responses to “Quatro poemas de Miguel-Manso”

  1. Carlos Teixeira Luis on Março 29th, 2010 10:48

    Bom dia,
    excelentes poemas de Miguel Manso.
    De facto, a descoberta deste poeta tem sido uma surpresa qeu não estava à espera e que acreditava que já não existisse poetas assim. Andava farto de tanta desconstrução, repetição, surrealismo mal sonhado, experimentalismo já experimentado, proezas circenses de linguagem, lá ia matando a minha fome com Adília, O’Neill, Faria e outros de lá fora.
    Talvez seja exagero, mas Manso entusiasma e faz-nos acreditar que a poesia está viva.
    Um grande abraço (virtual) agradecido ao autor do blogue e ao poeta. Assim… no silêncio, fica a intenção.

  2. Luís Nunes on Abril 10th, 2010 3:28

    Eu aconselho o Carlos a ler a poesia de Franco Alexandre, Rui Nunes, Nuno Rocha Morais – este infelizmente já falecido, e poderia continuar a enumerar. Compreendo que vivemos numa roda de amigos: basta ver o resumo da poesia da Assírio, que já foi uma grande editora até perder a sua principal face, mas a poesia é muito mais do que aquilo que nos impingem e impingem e impingem, e que só passo em claro aos olhos de quem não quer ver.

    Mas, contrariamente ao que diz o poeta Daniel Jonas, e que assino por baixo:
    «A abordagem de críticos literários e jornalistas de suplementos literários ao que se faz hoderniamente em matéria de poesia, concretamente emanada por autores na chamada primavera da vida, assemelha-se ao desconforto de um gato com carapins calçados. A sensação que normalmente ressalta desde as primeiras linhas destes ensaios é que tanto serviriam um discurso sobre literatura como outro sobre pastelaria fina.», o Miguel, parece ter criado uma onda de unanimidade e apologia, na qual não me identifico. Mas o que será efémero ou não, o tempo acabará por dizer. Mas acredito que o futuro da poesia seja mais do que se está a-ver-no verso.

    Aproveito também para lhe dizer, José Mário, que no outro dia li um conto seu, no livro da Leya que vinha no JL, e que me agradou muito mais do que a sua poesia.

  3. Norberto Nogueira Dias on Abril 11th, 2010 15:41

    Amei o santo subito.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges