Quatro poemas de Rui Almeida
Como se um sobressalto
Pudesse prolongar-se por vários dias
E conter passos e olhares
Sem que o espanto momentâneo se dissipe.
A limpidez de tudo
Delimita o mundo à sensação,
Traz as coisas ao contacto com a pele,
Experiências do tremor
Na demora que concentra.
***
Agora é o tempo todo desde sempre.
Abandono tenso de leveza
Levada às cordas vocais
No incómodo do esforço.
Caudal da vontade
Tornada assombro táctil.
***
Um golpe na pele
Como um abismo onde
O desamparo cresce para dentro.
Um golpe justo a deixar
Que as noites sejam tensas,
Rigorosas
Em sua escuridão propícia
À fertilidade.
***
Em três horas de viagem
Se lêem poemas com 40 anos,
Contemporâneos de começar
A ser quem hoje é em viagem
Nesta costa, neste longe
Atlântico incerto, inevitável.
Nesta costa foi o que é agora
Sonhado, silencioso,
Tenso, rumoroso
E fraco, como ainda
Custa ser. Se ser é isto,
Como seria não ser?
E como seria limpar o rosto
Depois de cada Agosto?
[in Caderno de Milfontes, volta d’mar, 2012]
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