Quatro poemas de Sylvia Beirute

CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

***

DIA DOS NAMORADOS

o amor
passou-se no tempo em que não havia medo.
não havia paredes subidas.
as manhãs eram remotas como rosas.
os ontens uma mitologia condigna.
a pátria era tão labiríntica quanto uma lágrima.
tão imprevisível quanto o ofício de um deus.
o amor passou-se no tempo em que ainda não tinha nome,
em que os segundos eram uma espécie de sangue,
e a tarde podia ser uma só palavra
na órbita de uma outra palavra.
o amor passou-se neste poema para pessoas sós,
passou-se como mera reprodução de um tempo
em que não havia corpos, logo
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.

***

LEITURA EXPLÍCITA

{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.

***

POEMA SIMPLES

escreve um poema muito simples
com ideias vagas, artefactos visuais,
e o azulecer de um castigo pendente,
um poema indietrónico e
sem dissecação possível
onde colocas, por fim, um intensificador
como aquele que deus usou
no começo do mundo.
um dia perguntar-te-ão de que
trata o teu poema,
e para explicares isso ao mundo – um mundo,
digamos, impessoal porque com excesso de gente –
escreverás um outro de alguns versos
encadeados como gotas de água
ou lágrimas da mesma substância.
aí, dirás que escrever poemas é errar
e que interpretar é a mais bela forma de erro.

[in Uma Prática para Desconserto, 4 Águas, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges