Quatro poemas de Tomas Tranströmer

Em Fevereiro deste ano, o poeta João Luís Barreto Guimarães publicou no seu blogue alguns poemas do novo Prémio Nobel, traduzidos a partir da versão castelhana do livro Para vivos y muertos (editado em Espanha pela Hiperión, com tradução do sueco por Roberto Mascaro e Francisco Uriz). Desse post que me foi dedicado (e que agora agradeço, com meses de atraso), roubo então estas quatro pequenas maravilhas, vertidas para português por JLBG:

HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).

***

A ÁRVORE E A NUVEM (1962)

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

***

DESDE A MONTANHA (1962)

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

***

PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.



Comentários

7 Responses to “Quatro poemas de Tomas Tranströmer”

  1. » Nobel De Literatura News & Trends on Outubro 6th, 2011 15:19

    [...] Cosic y el falso premio Nobel de Literatura 2011 | RPP NOTICIAS Quatro poemas de Tomas Tranströmer | Bibliotecário de BabelSueco Tomas Tranströmer ganha prêmio Nobel de Literatura El poeta sueco [...]

  2. Antonio on Outubro 6th, 2011 16:46

    Ainda que não conhecesse o Tomas Transtromer, heis que me surpreendo íntimo de seu universo e estilo poéticos. Como o poeta sueco, também tenho nas composições imagética a âncora e o fio narativo dos meus versos. Sem almejar comparações, convido os amantes da poesia a visitarem minha página no http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=33935

  3. Maria Torgal on Outubro 6th, 2011 19:11

    Encontrei o que procurava. obrigada pela partilha. Aa arte afirma-se quando se partilha. voltariei para ver o blogue uma vez que a literatura é o meu chão. :) festejemos o novo Nobel. .

    A

  4. De Tomas Tranströmer « O jornaleiro on Outubro 6th, 2011 21:48

    [...] português Share this:TwitterFacebookGostar disto:GostoBe the first to like this [...]

  5. Zereys - popeta do profundo on Outubro 7th, 2011 0:56

    No livro máximo dos cristãos, os poetas são tidos como santificados!
    Os pensamentos não nos escapam, as vezes, nós é que injuriarmos deles…
    Vida ao Nobel para que toque seu piano, mesmo só com uma das mãos!

    ZéReys – poeta do profundo.

  6. charlles campos on Outubro 7th, 2011 2:06

    Belíssimos poemas e belíssimo blog. Tomei a liberdade de copiar estas traduções e publicá-las em meu blog. Espero que não se importe.

    Abraços.

  7. Dija Darkdija on Outubro 8th, 2011 1:45

    Muito merecido o nobel dele…dá pra perceber só por esses versos. Sei lá o que comentar…que um dia quero chegar nesse nível? Um dia, se meus versos viajosos crescerem tanto assim, eu termino meu poema.

    Dija Darkdija

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