Queimar Tróia

«JOANA
Sonhaste com o cavalo dentro das muralhas de Tróia.

VASCO
No sonho não sabia que era Tróia. Era um grande cavalo de madeira.

JOANA
Podia ser uma memória de infância.

VASCO
Não, era gigantesco.

JOANA
E então?

VASCO
Então ficou noite. Quer dizer, foi à noite, alta noite, mas foi à noite no sonho, abriu-se um alçapão e saíram de lá vários homens. E os homens que saíram eram os teus amantes.

[silêncio]

JOANA
Vou sair.

VASCO
À Rua Augusta?

JOANA
Vai-te foder.

VASCO
Fica.

JOANA
Não, desculpa, não estou para isso. No meio de tanta ironia e erudição és um homem como os outros, como o meu pai, uma mulher não se pode dar com outros homens, ter uma vida, um passado, não ter vergonha nisso, o mundo começa quando vocês nos encontram, estamos reduzidas a virgens, virgens ou putas, já se sabe, nenhum homem nos amou, todos os homens nos foderam, e vocês são os primeiros homens, os primeiros na lua, um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade; mas eu não te peço desculpa pelo cavalo de Tróia, não te explico, não me arrependo, não minto nem fujo. Houve outros homens e haverá outros, se isto não funcionar, mas sou tão fiel como tu. Monogâmica em “série” como tu dizes. Se estou contigo, não é com os teus truques que escapas a isso, que inventas o que não existe, que não sofres fingindo que te chocas. Eu não sou assim, e se pensas que sou estás enganado. Não preciso para nada dos teus cavalos de Tróia.

VASCO
Eu gostava que não existisse mais nada no mundo.

JOANA
Senão tu e eu?

VASCO
Sem ex, sem Y, sem Augustos e ruas augustas.

JOANA
Não somos náufragos numa ilha. Nem escravos. Nem somos a mesma pessoa. Somos duas pessoas diferentes que vivem no mundo e que gostam uma da outra.

VASCO
Que gostam.

JOANA
Que gostam. Eu sou mais cautelosa que tu com as palavras.

VASCO
Foi um sonho que tive porque tive esta preocupação, eu não disse que tens amantes, antigos ou novos, a sair de dentro de um cavalo, que trouxeste um cavalo armadilhado para as nossas vidas e de lá saem homens que são teus amantes. No sonho eram amantes, porque eu tenho medo, e tenho medo porque sou cauteloso com as palavras. Tenho medo não do teu passado, porque toda a gente tem um passado, mas medo do futuro, de repente temos uma coisa boa do lado de fora da muralha, um presente, uma trégua, um sinal de retirada, e quando está dentro da muralha, dentro de nossa casa, dentro da nossa cama, é um desastre, uma traição. A traição não é tua, é nossa, que fomos ingénuos e confiantes. Que achámos que não há inimigos, que cada desconhecido não é um inimigo, que isto que temos não sofre ameaças, até que somos inimigos um do outro.

JOANA
Eu nunca serei tua inimiga.

VASCO
Eu nunca serei teu inimigo.

JOANA
Queima o cavalo de Tróia, meu querido. Esquece os sonhos quando acordares do sono, esquece o medo quando estiveres com medo, nós estamos nisto juntos e, como tu dizes do teu Deus, se não há liberdade não há mérito. Vamos viver a liberdade sem cavalos nem medos nem códigos.

VASCO
Não são ciúmes, percebes? O ciúme é um medo.

JOANA
Não tenhas medo.

VASCO
E o cavalo de Tróia não é uma teoria minha, foi uma imagem, uma imagem que apareceu, uma imagem triste e perversa e livresca, mas eu queimo o cavalo se o queimares comigo, queimo até Tróia, se tu a queimares comigo.

JOANA
Queimas Tróia? Mas nós não vivemos em Tróia?

VASCO
Não, minha querida, nós vivemos no mundo.»

[in Nada de Dois, de Pedro Mexia, Tinta da China, 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges