Rayuela, modo de usar

Logo no início do romance Rayuela, finalmente editado em Portugal pela Cavalo de Ferro (com um atraso de quase meio século), Julio Cortázar oferece ao leitor uma “Tábua de orientação” onde explica que o seu livro “é muitos livros”. Os 155 capítulos desta narrativa não-linear podem ser percorridos como se queira: tudo de seguida, aos saltos, do fim para o princípio, aleatoriamente ou até deixando de lado uma parte inteira (há 99 capítulos considerados “prescindíveis” pelo autor). Não apenas por isto, mas também por isto, Rayuela – que se converteu em O Jogo do Mundo na excelente tradução de Alberto Simões – abre a porta a uma experiência literária singular e talvez única, porque a ordem da leitura que escolhermos (uma entre milhares de possibilidades) pode não ter sido escolhida por mais ninguém.
Para evitar que os leitores se assustem com o livre arbítrio, habituados que estão desde sempre a seguir um fluxo narrativo pré-determinado, Cortázar sugere desde logo duas opções: ou a leitura no modo tradicional até ao capítulo 56 (esquecendo os exercícios meta-literários da terceira parte) ou seguindo uma cábula que fixa uma espécie de ziguezague (começa-se no capítulo 73, depois vem o 1, o 2, o 116, o 3, o 84, o 4, o 71, etc.). Ao optar por este último, quis testar o caminho sugerido pelo autor mas o sistema trocou-me as voltas. No fim de cada capítulo, aparece entre parêntesis o número do capítulo para o qual se deve saltar. Por exemplo, ao acabar o 152, Cortázar envia-nos para o 143; mas eu, nem sei bem como, fui parar ao 144 e quando dei pelo lapso, mais à frente, a minha leitura já tinha divergido consideravelmente da pista oficial.
Histórias destas são comuns entre os leitores de Rayuela, essa imensa confraria de cúmplices que alguns fazem questão de transformar, abusivamente, em sociedade secreta – com rituais de iniciação e um culto quase religioso ao grande Cronópio Cortázar. Entre os exercícios a que os fãs se entregam, destaca-se a escolha do capítulo preferido. Há os que preferem a prosa poética do 7 (“Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão”), outros inclinam-se para o 68 (cena de sexo narrada em glíglico, um dialecto de palavras inventadas) ou para o terrível 28 (em que morre um bebé e os amigos adiam a revelação da notícia à mãe, mergulhando em discussões filosóficas durante 25 páginas). Por mim, escolho o 23. Não porque seja o capítulo em que Horacio Oliveira, o protagonista, primeiro depara com Morelli (escritor-guru e teórico da literatura, porta-voz das ideias de Cortázar), quando este ainda não passa de um velhote desconhecido, atropelado por um autocarro, nem porque nele se faz a mais deliciosa paródia à música contemporânea (através da figura de Berthe Trépat, pianista e compositora), mas antes porque abre com a meticulosa descrição do que Oliveira observa enquanto está “parado numa esquina” de Paris: pedreiros ao balcão do café, uma mulher à janela, um clochard, uma vendedora de lotaria no seu cubículo.
Lembrei-me imediatamente da Tentative d’épuisement d’un lieu parisien, texto em que Georges Perec enumera, como um entomólogo, tudo o que aconteceu na Place Saint-Sulpice, entre 18 e 20 de Outubro de 1974. E também me lembrei (lembrar é talvez o mais perequiano dos verbos) do monumental A Vida Modo de Usar. Publicado em 1978, quinze anos depois de Rayuela, eis um monumento com 99 capítulos (nenhum deles prescindível), que também se pode ler de várias maneiras e não é apenas um romance, mas sim muitos “romances”, como de resto Perec o subtitulou. Se Rayuela é um livro-mandala, que faz de Paris e Buenos Aires duas faces da mesma moeda, A Vida Modo de Usar é um prodigioso mosaico que cruza dezenas de histórias e personagens num prédio da imaginária rue Simon-Crubellier. Na estrutura de Rayuela paira a imagem do jogo da macaca (desenhado a giz no chão, entre a Terra e o Céu); no livro de Perec a do puzzle a que falta sempre uma peça. Ambas são ficções devoradoras da realidade inteira do mundo: ultra-romances, hiper-romances, supra-romances.
Sim, lembrei-me de Perec ao ler Cortázar. E perguntei-me se os dois alguma vez se terão encontrado por mero acaso, no Pont des Arts. Provavelmente não. Mas tenho a certeza que Horacio e a Maga, que nunca combinavam os seus encontros, foram várias vezes tocar às campainhas do n.º 11 da rue Simon-Crubellier, acompanhados das restantes personagens do argentino (o Clube da Serpente em peso). E alguém lhes abria a porta, sempre.

[Versão longa da crónica publicada no n.º 70 da revista Ler]



Comentários

3 Responses to “Rayuela, modo de usar”

  1. Fernando Dinis on Junho 24th, 2008 7:57

    É um livro impressionante. Estou a lê-lo.
    Não gostei do prefácio. Completamente escusado.

  2. Gabriela Longman on Outubro 1st, 2008 21:44

    Para mim, o capítulo mais impressionante é o da carta da Maga ao bebê. O leitor que segue o zigue-zaque sugerido só chega até ela quando Rocamadour já está morto e o impacto é total. Por outro, trata-se de uma carta escrita tanto para o bêbe quanto para Horacio…

    Enfim, parabens pelo belo artigo e saudações parisienses

  3. Gabriela Ventura on Fevereiro 10th, 2009 3:16

    Este seu artigo sobre Rayuela (O Jogo da Amarelinha para nós, brasileiros) é uma delícia. Por ele descobri seu blog, que agora leio com freqüência.

    Só para constar, como boa associada da confraria cortazariana que sou: meu capítulo preferido é o 34.

    Um abraço!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges