Reflexos num espelho deformado

O Filho Eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 237
ISBN: 978-989-616-289-4
Ano de publicação: 2008
Quando se decidiu a escrever, ao fim de vinte e tal anos, sobre o seu filho Felipe, Cristovão Tezza sabia perfeitamente que estava a entrar num terreno minado. Felipe nasceu com síndrome de Down e qualquer aproximação literária ao tema, por muito vigiada que seja, está sempre em risco de cair no abismo da pieguice afectivamente correcta. Pela própria natureza da história que conta, O Filho Eterno aproxima-se vezes sem conta do precipício, chega a olhar lá para baixo, mas nunca resvala. Só isto já seria suficiente para o considerar um romance acima da média, num tempo em que os romances acima da média são cada vez mais raros.
Inteligentemente, Tezza optou por escrever o seu livro na terceira pessoa, escondendo-se num narrador que lhe permite uma visão exterior, um olhar-se de perto, mas a partir de fora. Os factos da sua vida surgem assim com uma clareza que o uso da primeira pessoa, demasiado próxima da esfera emocional, talvez não alcançasse. Dito de outro modo: o protagonista, embora partilhe o percurso biográfico de Tezza e as angústias com o filho «diferente», não deixa de ser uma personagem de ficção. E este distanciamento é talvez o principal antídoto contra a autocomplacência.
O livro começa no dia do nascimento de Felipe. Enquanto espera nos corredores da maternidade, o quase pai faz um severo exame do seu lugar no mundo. Aos 28 anos, ele sente que «ainda não começou a viver». Com o curso de Letras a meio, sem profissão definida, sustentado pela mulher, as suas aspirações literárias esbarram na indiferença das editoras. Embora se sinta «predestinado à literatura», duvida das suas capacidades e sofre com isso. No fundo, ele é «delicado demais» (ou «ignorante demais») para a «realidade simples» do quotidiano e tem pânico de ser integrado pelo «sistema». Por isso, bebe muito, racionaliza tudo e encena o seu próprio teatro mental.
Para quem está aprisionado por este «leque de ansiedades felizes», no Brasil de 1980, a viver os «últimos minutos da ditadura», o nascimento do filho poderia funcionar como libertação. Só que o diagnóstico cai logo depois, brutal: Felipe tem trissomia do cromossoma 21. Isto é, síndrome de Down. Ou, como se dizia na época, «mongolismo». O problema do filho altera então o eixo das coisas e Tezza disseca, sem uma réstia de moralismo, as consequências do abalo. Acompanhamos o desespero inicial, as esperanças num falso diagnóstico, a vergonha, as frustrações, o desejo de que o filho morra cedo, a repulsa diante da comiseração alheia. É um processo doloroso e inconfessável, que se passa na cabeça do pai durante o calvário das consultas com especialistas e dos esquemas de estimulação precoce – formas de luta contra a «névoa neurológica», quase sempre violentíssimos, a raiar a tortura.
«Um filho é como um espelho no qual o pai se vê», diz Kierkegaaard numa das epígrafes. Mas se o espelho não é liso, a imagem que nele se projecta fica deformada. Ao olhar para Filipe, o pai vê o seu próprio falhanço: «O problema não é o filho; o problema é ele.» A lenta aprendizagem do amor paterno, assente numa demorada e incerta «rede tentacular de afetos», coincide então com a saída do labirinto que o escritor construira à sua volta (um labirinto que a memória recupera, ao evocar o empenhamento juvenil na «arte popular», uma passagem por Coimbra durante o PREC ou os tempos em que trabalhou na Alemanha, sem papéis, a varrer o chão de um hospital). O presente perpétuo da criança, que não distingue o ontem do amanhã, vai-se encaixando cada vez melhor nos vários passados do pai – sobrepostos pela sua reflexividade quase cartesiana – até ao apaziguamento final diante de um futuro que ninguém pode antecipar.
O consenso em torno de uma obra nem sempre é bom sinal. Mas no caso de O Filho Eterno – vencedor, em 2008, dos dois principais prémios literários brasileiros (Jabuti para melhor romance e PT de Literatura), além dos prémios da Associação Paulista dos Críticos de Arte e da revista Bravo! para Livro do Ano – é apenas uma questão de justiça.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Comentários
3 Responses to “Reflexos num espelho deformado”
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Já tinha lido e gostado bastante. Estás em forma.
[...] alguns dos livros anteriores já tivessem sido premiados e bem recebidos pela crítica, foi com O Filho Eterno (acabadinho de chegar às livrarias portuguesas, numa edição da Gradiva) que Cristovão Tezza [...]
[...] Jean-Louis Fournier, venceu o Prémio Femina no início de Novembro. Tal como Cristovão Tezza em O Filho Eterno, Fournier parte da sua dificílima experiência pessoal para falar de uma paternidade imperfeita, [...]