Regressos ao futuro
Slam – A vida como ela é
Autor: Nick Hornby
Título original: Slam
Tradução: Rita Graña
Editora: Teorema
N.º de páginas: 305
ISBN: 978-972-695-778-2
Ano de publicação: 2008
Um dos maiores flagelos sociais do Reino Unido tem sido a elevadíssima incidência de gravidezes adolescentes, que ocorrem em muito maior número nas ilhas britânicas do que em qualquer outra parte da União Europeia. Sabendo-se que os métodos tradicionais de luta contra o problema (o esclarecimento público, a distribuição de preservativos, etc.) não parecem dar grandes resultados, talvez fosse de sugerir ao governo de Gordon Brown uma medida mais radical: a leitura obrigatória de Slam, o livro em que Nick Hornby mostra como a chegada precoce de um bebé pode transtornar a vida de um jovem que nem sequer sabe ainda muito bem o que é o amor, quanto mais o que é (ou deve ser) a paternidade.
O narrador desta história é Sam Jones, um rapaz banalíssimo e adolescente até à medula. Aluno mediano, come no McDonalds, bebe frappuccinos no Starbucks, ouve Green Day, vê televisão em doses industriais e dá cabo do juízo da mãe, uma divorciada de 32 anos que o teve aos 16. A paixão maior de Sam é andar de skate e tudo o que lhe acontece no dia-a-dia, dos encontros com um amigo meio lerdo (Rabbit) aos curtos namoros, é partilhado com Tony Hawk, «a J. K. Rowling dos skaters», cujo póster colado na parede faz as vezes de amigo imaginário. Sempre que tem dúvidas, elas são postas à consideração da imagem bidimensional de Hawk e a imagem bidimensional de Hawk responde-lhe com frases retiradas da respectiva autobiografia – «o melhor livro alguma vez escrito», segundo Sam, que o leu dezenas de vezes (e por isso o sabe de cor).
As coisas começam a complicar-se quando Alicia, uma rapariga igualmente banal, se atravessa no seu caminho e o azar, ou a inconsciência, faz com que engrossem a estatística a que nos referimos no início deste texto. As consequências são as que se adivinham: crises familiares, dramas telenovelescos, o pânico de crescer à força. Se a mãe de Sam desespera com a repetição do erro que ela própria cometeu, os pais de Alicia, do alto da sua snobeira de classe média-alta, ficam horrorizados com o facto de a filha nem sequer ponderar um aborto, deitando assim às urtigas os planos que para ela haviam traçado.
O principal mérito de Hornby, além da escrita desenvolta e divertida, é conseguir colocar-se no lugar de Sam e escrever como ele de facto escreveria, nunca caindo em moralismos fáceis, nem sequer quando a narrativa salta no tempo (à laia do filme Regresso ao Futuro), permitindo ao protagonista espreitar por duas vezes a sua vida uns meses depois, já como pai que não sabe muito bem como é que se leva, por exemplo, um filho às vacinas.
Avaliação: 6,5/10
[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]
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