Resposta a um crítico que responde a uma crítica

Quem não se sente, não é filho de boa gente. Bruno Vieira Amaral sentiu-se. Fez ele muito bem. Eu escrevo regularmente sobre livros há 15 anos, o que continua a não ser muito tempo, se compararmos com a actividade crítica de um João Gaspar Simões ou de um Eduardo Prado Coelho. Mas também eu, inevitavelmente, me apercebi do «fenómeno curioso» a que se refere Bruno Vieira Amaral (vou passar a referi-lo pelas iniciais, sem desprimor). É de facto muito raro ver um autor português a comentar por escrito textos críticos que tenham sido publicados sobre os seus livros, sobretudo se forem negativos. Já sem ser por escrito, basta almoçar numa mesa de escritores num qualquer festival literário para perceber como há gente que transporta, anos a fio, cargas tóxicas de azedume e ressabiamento.
Diz BVA: «[Os escritores] podem evitar directas referências aos críticos – seja com o valoroso intuito de não alimentar polémicas, seja para retirar importância pública àquilo a que eles intimamente dão valor – mas eles sabem que nós sabemos que eles lêem as críticas. E dão-lhes tanto valor que alguns chegam a ligar para as redacções a queixar-se das críticas negativas, outros queixam-se por não terem tido uma crítica que fosse neste ou naquele jornal, outros, magoados com o que consideram ser uma injusta machadada, murmuram em jantares e encontros ocasionais contra os pérfidos perpetradores do crítico crime.» A tudo isto já assisti. E até a telefonemas por causa das odiosas estrelas, que só criam equívocos e são o menos fiável dos métodos para avaliar ou comparar obras literárias. No meu caso, houve até um autor indignado que confessou ter tido vontade de me atropelar, na semana em que uma crítica supostamente «destrutiva» lhe «arruinou a carreira» (e ainda hoje não sei até que ponto estava a falar a sério ou a hiperbolizar a sua frustração).
Quero por isso louvar a atitude de BVA, que se deu ao trabalho de «descer do seu olimpo de autor e vir cá abaixo trocar dois dedos de conversa com o crítico». É assim que se faz. O autor tem todo o direito de responder a um crítico, mas é bom que a resposta chegue ao destinatário, em vez de circular como veneno nos mentideros. Até porque assim o crítico pode por sua vez responder à resposta. Chama-se a isto diálogo, um hábito saudável entre pessoas civilizadas, pelo menos desde o tempo de Sócrates (o grego). Quando dialogamos, não só ouvimos o outro como nos arriscamos a aprender com ele. E podemos também explicar porque dissemos o que dissemos. Ou porque não dissemos o que na verdade queríamos dizer.
Na sua divertida diatribe, BVA defende o seu trabalho e louvo-o por isso. Não só está no seu direito, como consegue fazê-lo com graça, inteligência e panache. Gostava apenas de esclarecer alguns pontos:

– Como é óbvio, eu li as 229 páginas do livro e não apenas a introdução e o índice (sei que BVA sabe isto, justamente porque levamos os dois a sério o nosso trabalho, mas há efeitos retóricos que não se podem desperdiçar)
– Admito que há na minha crítica uma desproporção entre o espaço que dedico à questão do critério de escolha (dois parágrafos grandes) e a avaliação propriamente dita da escrita de BVA (um parágrafo pequeno). Devia ser ao contrário.
– Nos jornais, hoje em dia, os textos críticos são tremendos exercícios de síntese. Mal começamos a desenvolver uma ideia e já temos que concluir a prosa. Nem sempre é fácil. Nem sempre se consegue. Desta vez, manifestamente, não consegui. O texto tem 2800 caracteres. Funcionaria se fosse o início de um texto maior, com uns 4000 ou 5000 caracteres. Mas não é. Invejar o espaço que é dado aos críticos da New Yorker ou do TLS não serve de nada. As coisas são o que são. Quando percebi que a crítica ia ficar coxa, com uma perna muito maior do que a outra, já não tive tempo de a refazer. Contingências das deadlines jornalísticas.
– Sendo impossível voltar atrás no tempo, tentarei fazer aqui no blogue o que já não posso fazer no jornal. Ainda esta semana, escreverei a tal crítica de 4000 ou 5000 caracteres que o livro pedia e não lhe pude dar.
– Ao contrário do que pensa BVA, eu gostei que as 50 personagens fossem afinal 51, ou 55. Só tive pena que não houvesse mais personagens retiradas de contos. Por mim, as 50 personagens até podiam ser 74 ou 92. Quantas mais, melhor.
– Quanto à vexata quaestio da não inclusão de António Lobo Antunes, percebo que BVA estrebuche, porque não foi manifestamente um esquecimento mas um acto deliberado. Já suspeitava. Pelas razões invocadas, BVA tem todo o direito de deixar de fora Lobo Antunes. Não pode é esperar que a sua escolha pessoal não seja susceptível de comentário. Havendo um elefante na sala, é estranho ignorar que há um elefante na sala. E eu não referiria sequer o assunto se BVA tivesse escolhido, digamos, dez personagens do Eça, nove do Camilo, oito do Saramago, sete do Aquilino, seis do José Cardoso Pires, cinco da Agustina, três do Carlos de Oliveira e duas do Mário de Carvalho. Mas quando o crivo é suficientemente largo para dar passagem, como eu assinalei, a Fernando Namora, João Aguiar e Miguel Sousa Tavares, mas também a outros autores menores, como Fernando Dacosta, Ricardo Adolfo, Clara Pinto Correia ou António Alçada Baptista, acho que a ausência de Lobo Antunes pode e deve ser questionada.

Ah, as saudades que eu já tinha de uma polémica literária.

PS – Já agora, anotem: o lançamento do Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa será esta quinta-feira, 16 de Maio, às 18h30, na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa), com apresentação de Ana Cristina Leonardo e João Bonifácio.



Comentários

5 Responses to “Resposta a um crítico que responde a uma crítica”

  1. Mário Rufino on Maio 16th, 2013 13:44

    Fixe.
    Considerar-me-ei crítico literário quando me quiserem atropelar. Por enquanto, só recebo cartas anónimas. Ainda me falta muito caminho até ser atropelado.

    Ainda não li o livro do Bruno, mas vou lê-lo com muito gosto.

  2. AMGuarda on Maio 18th, 2013 11:02

    Tricas de alecrim e manjerona. Até os bocejos que provocam são chatos.

  3. Miguel Coelho on Maio 20th, 2013 16:26

    José Mário, sem qualquer falta de respeito para qualquer dos envolvidos, diria que ainda bem que não colocou o António Lobo Antunes! Qual o interesse de se seleccionar sempre os mesmos? A critica é que respira dessa ideia de uniformidade de valor tentando estabelecer uma ordem na arbitrariedade da realidade. A partir da altura em que o critério de selecção é pessoal torna-se despropositado (senão mesquinho e infantil ) andar a identificar os ausentes…

    Cumprimentos, e contínuo a valorizar o teu trabalho.

  4. pedro on Maio 21st, 2013 17:58

    Por falar em polémica literária, esta era mais gira se se discutisse que personagem do Lobo Antunes poderia estar no livro. Eu li muito pouco dele, mas não é certamente pelas personagens que os seus livros são notáveis. É difícil lembrar-me de alguma.

    Acho que era giro falar disso….

  5. ANTÍNIO CABRITA on Maio 22nd, 2013 17:04

    GOSTEI!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges