Resposta a uma resposta

Antes do mais, deixem-me confessar o meu espanto. Sabendo que José Saramago nunca se pronuncia sobre os comentários à sua obra, descobrir as palavras que hoje me dedica (ainda por cima em duplicado, na blogosfera e na imprensa) foi mais do que uma surpresa. Diria que representou uma espécie de choque eléctrico (ainda sinto as chispas na ponta dos dedos). Primeira reacção: incredulidade. Será isto a brincadeira de um hacker? Ou estará o Prémio Nobel a dirigir-se de facto a este humilde crítico literário e a pedir, «por favor», que eu esclareça um dos meus juízos? Não, não era brincadeira de um hacker. E sim, Saramago decidiu-se mesmo a interpelar, com veemência mas bons modos, o autor de uma crítica que lhe pareceu, num determinado aspecto, injusta.
À primeira leitura, foi assim que interpretei o texto. E já me preparava para lhe responder (como responderei mais à frente), quando me apercebi do verdadeiro objectivo da interpelação, um propósito claríssimo que estava mesmo ali, por baixo do meu nariz, meio escondido nas entrelinhas e interstícios da prosa, mas que me escapou por completo. Mais do que uma defesa do seu livro, ou do modo como o escreveu, o que Saramago quis fazer foi um bem achado exercício de ironia. Reparem que o escritor começa por me dar razão: tal como sugeri, ele admite que nunca interage com a restante blogosfera, pelo que não deve ser considerado um verdadeiro blogger. Acontece que Saramago faz esta observação no seu blogue, em resposta a um interlocutor que ele sabe ser um elemento activo da blogosfera. Ou seja, é no preciso momento em que se assume como não-blogger que ele se torna um blogger de pleno direito, estabelecendo finalmente o diálogo com os seus pares na «página infinita da internet» – condição nunca cumprida de um estatuto (o de blogger) que era, pelo menos até agora, abusivo atribuir-lhe.
Com tudo isto, não pretendo deixar para segundo plano as questões concretas que Saramago me dirige, sobre o simplismo das suas análises e o alegado excesso de indignação. Convém recuperar, do meu texto, a passagem em causa:

Há nestas diatribes um excesso de indignação, um certo simplismo na análise dos problemas? Talvez. O certo é que Saramago nos atira à cara os lados mais negros da realidade, vergonhas inadmissíveis que outros preferem esconder ou ignorar.

Em primeiro lugar, não afirmo que há excesso de indignação e simplismo. Admito que exista (isto é, a meu ver existe) mas o «talvez» está lá para sublinhar que se trata da minha percepção – e, estou certo disso, da percepção de muitos leitores. Para outros, a resposta à pergunta seria, estou igualmente certo disso, um rotundo «não». O «talvez» instaura ainda uma ambiguidade que a frase seguinte desfaz. Por muito que haja excessos de indignação e fragilidades argumentativas, Saramago confronta-nos com «vergonhas inadmissíveis que outros preferem esconder ou ignorar». A importância e o impacto das denúncias não está em causa, apenas o modo como elas são feitas.
Exemplifiquemos. Quando me referi ao «simplismo na análise dos problemas», tinha em mente alguns comentários que, lidos à letra, caem no pecado mortal da generalização grosseira (e, por isso, perigosa). Veja-se, nas páginas 27/28, este excerto de um texto sobre Berlusconi:

«Salvo o que é do conhecimento geral, sei pouquíssimo da vida e milagres de Silvio Berlusconi, il Cavalieri. Muito mais do que eu há-de saber com certeza o povo italiano que uma, duas, três vezes o sentou na cadeira de primeiro-ministro. Ora, como é costume ouvir dizer, os povos são soberanos, e não só soberanos, mas também sábios e prudentes, sobretudo desde que o continuado exercicio da democracia facilitou aos cidadãos certos conhecimentos úteis sobre como funciona a política e sobre as diversas formas de alcançar o poder. Isto significa que o povo sabe muito bem o que quer quando o chamam a votar. No caso concreto do povo italiano, que é dele que estamos falando, e não de outro (já chegará sua vez), está demonstrado que a inclinação sentimental que experimenta por Berlusconi, três vezes manifestada, é indiferente a qualquer consideração de ordem moral. Realmente, na terra da mafia e da camorra, que importância poderá ter o facto provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente? Numa terra em que a justiça nunca gozou de boa reputação, que mais dá que o primeiro-ministro faça aprovar leis à medida dos seus interesses, protegendo-se contra qualquer tentativa de punição dos seus desmandos e abusos de autoridade? (…) O que não estará nada bem é que o povo italiano venha a chegar uma quarta vez às pousadeiras de Berlusconi a cadeira do poder.» (negritos meus)

Mesmo tendo em conta o registo irónico, se um escritor italiano se referisse a Portugal nos termos em que Saramago se refere a Itália, pondo em causa a sua Justiça e o seu sistema democrático, que reacções não se levantariam por cá? Eu, não sendo italiano, mas conhecendo muitos italianos que odeiam a odiosa figura de Berlusconi tanto ou mais (muito mais, porque o sofrem na pele) do que Saramago, contorci-me todo na cadeira ao ler aquele venenoso e abusivo «na terra da mafia e da camorra».
Outro exemplo. Abrir nas páginas 50/51:

«Vivemos numa sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações. A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado, irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite, os video-jogos que são como manuais de instruções para alcançar a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas, enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes, esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe, cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa: são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.»

Mesmo que exista alguma verdade nesta visão dantesca da juventude actual, creio que «exagero» e «simplismo» só não definem bem esta tese por serem, neste caso, eufemismos. E era a isto que me referia com o «excesso de indignação». Não tanto indignação em excesso – até porque a indignação nunca é demais, precisamos realmente dela como de pão para a boca –, mas indignação que leva a excessos. Excessos de retórica e excessos no julgamento das realidades, sejam elas o sistema democrático ocidental (com todos os seus defeitos) ou a suposta agressividade dos jovens de hoje, que a mim me parecem tão agressivos como os jovens de outras décadas, embora talvez tivessem mais razões para o serem.
A pergunta que Saramago me coloca é muito concreta: «Há limites para a indignação?» E eu respondo: não, claro que não há limites. Mais do que um direito (como defendeu, noutras circunstâncias, Mário Soares), a indignação é um dever. Dito isto, convém não esquecer que a indignação pode funcionar como uma arma. Uma arma poderosa, mas que ao atingir o alvo (através das denúncias do que está mal no mundo, por exemplo) também pode provocar danos colaterais. E mais ainda quando, a carregar no imaginário gatilho, está uma figura com a influência e o poder mediático de um Prémio Nobel da Literatura.



Comentários

13 Responses to “Resposta a uma resposta”

  1. manuel margarido on Julho 6th, 2009 16:48

    Caro:

    Com serenidade, equilíbrio, sem arrogância, revela nesta troca de ideias (não vejo ponta de ‘polémica’) a dimensionalidade da questão; desmonta a pergunta, aparentemente ‘certa’ mas bastante flat do José Saramago. E não, não lhe tremeu a mão a si. Se fosse (improbabilissimamente) comigo, eu ficaria dois dias em pasmo!

  2. João Cardoso on Julho 6th, 2009 20:54

    Caro José Mário,

    Deixe-me felicitá-lo pela sua crítica ao último livro de Saramago e, fundamentalmente, pela excelência desta sua resposta a uma (inesperada) resposta.

    Cumprimentos.

    JC

  3. JC on Julho 6th, 2009 21:53

    Li com atenção a sua troca de “correspondência” com José Saramago. No entanto e ao contrário dos anteriores comentarista, devo dizer que discordo profundamente da sua leitura. Como José Saramago, não vejo limites para a indignação e concordo totalmente consigo quando a afirma como um dever. Embora jovem, sou herdeiro de uma visão totalmente “engagé” do mundo e da forma de estar na vida. Quando à sua indignação em relação aos termos como Saramago retrata a Itália devo dizer-lhe que nenhuma mossa sofreria o meu sentimento patriótico (se é que existe) se um autor italiano o fizesse em relação ao nosso país. Considero que a dignidade deve estar nas pessoas, mais do que em abstracções nacionalistas e tudo o resto. Como poderá facilmente consultar, vários são os autores italianos que nos dias de hoje apontam os mesmo problemas em relação a Itália. E para não se cair na tentação de eufemizar os problemas, escondendo-nos atrás de uma hipócrita relativização dos mesmo, acho que os devemos apontar exactamente como eles o são. É de todos sabido os problemas da justiça italiana, e as tentativas flagrantes de Berlusconi se tornar um Mussolini de cara lavada e moderno, do século XXI. Se será bonito ou não dizê-lo de viva voz, trata-se de uma questão puramente pessoal e directamente relacionada com o conceito de dignidade e liberdade de cada um.
    Quanto à sua avalião do julgamente dos jovens por parte de Saramago, devo concordar desde já que todas as generalizações caiem no pesado erro de “pôr tudo no mesmo saco”. Quanto ao resto, e por ser bastante jovem, concordo inteiramente com Saramago. Quem manda em casa hoje em dia são os filhos, não está estabelecida de nenhuma forma uma hierarquia saudável de aprendizagem e passagem de testemunho como no antigamente. Vejo-o diariamente nas relações de amigos e colegas com os seus familiares. Existe um deixa andar preocupante dos pais para com os filhos, como se a educação fosse papel primário do Estado e não apenas em lugar suplementar. Assim, os miúdos aprendem com o que não devem e espelham de todas as formas a agressividade e intolerância como que são bombardeados diariamente nos canais televisivos e jogos de computador e afins. Poucos são os miúdos que lêem nos dias de hoje, prejudicando não só o seu conhecimento da língua que atinge o medíocre nos melhores casos, como também todo a sua capacidade intelectual de raciocínio e de produção de pensamentos.
    A realidade é efectivamente preocupante e não nos devemos espantar quando pessoas de espírito elevado se insurgem com palavras possivelmente agressivas, mas em nada exageradas, contra a actual situação. Para além de não verem esperança no futuro, é-lhes também morto o orgulho do já até então conquistado.

  4. Pedro Lérias on Julho 7th, 2009 17:23

    Interessantíssimo este ‘soluço’ entre vocês.

    Penso que o Saramago não foi irónico no que escreveu. Mas foi um excelente esgrimista. Abriu-lhe um flanco e pediu-lhe uma estocada. Tudo muito educado.

    E a estocada foi dada. Duvido que haja contra resposta. Mas o Saramago percebeu o que queria perceber.

    A sua resposta é a que eu tentaria dar, claro, sem alcançar o seu resultado.

    Mas penso que indignação para Saramago e indignação para si são duas coisas completamente diferentes.

    Quem consegue controlar a indignação – a bem dos resultados práticos – não está verdadeiramente indignado. A meu ver, claro.

    Foi uma lição de mestre a aluno, mas que elogio que o considere aluno!

    Não me parece que se tenham entendido. Vêm de realidades diferentes. O Saramago sabe isso, o JMS, no parecer de Saramago – e na minha interpretação, claro – não.

    Desconfie de todos os elogios que receber à sua resposta. São egos empolados, esgrimistas de sofá.

    Penso que quando a emoção esfriar ainda mais, o próprio JMS verá isto tudo de forma diferente.

    Obrigado por aceitar protagonizar, sem falsas modéstias e ao mesmo tempo de forma honesta, aceitando expor-se, esta troca entre vocês.

    É essa sua honestidade que o Saramago terá apreciado. Não abunda. É um começo que Saramago deverá considerar essencial ao percurso de vida. Convidou-o a dar um passo, irá sorrir e talvez achar que ainda não estava preparado.

    Brincadeiras – sérias – de um mestre da vida, humano e com falhas, claro.

  5. a on Julho 7th, 2009 18:00

    a explicação para esta polémica #fail é fácil: saramago, depois de você ter sido convidado para a “entrevista”, “jamais” esperava que você “criticasse” o seu livro… (#UniãoSoviética)

    (Chamr-lhe “octogenário”, apesar de verdadeiro, tb deve doer:)

    Conclusão (minha):
    Saramago #fail (apesar de agora, finalmente, ser um blogger:) José Mário Silva #fezoseutrabalho #deuasuaopinião (não #favores:) #DEMOCRACIA! (#acho:)

  6. João Corta-Relva on Julho 7th, 2009 19:46

    Caro José, devia ter vergonha de falar assim de uma das mais ilustres figuras portuguesas DE SEMPRE! “Cresça e apareça”, dir-lhe-ia eu, se me chamasse José Saramago. A humildade é das virtudes mais bonitas. Perante figuras como o nosso Nobel, há que saber baixar as orelhas – a menos que muito injustamente atingidos, o que não foi, claramente, o caso.
    Para a próxima, sugiro, mantenha-se calado.

  7. candida on Julho 8th, 2009 21:12

    este joão é um parvo de segunda!

  8. José Mário Silva on Julho 8th, 2009 22:12

    Deixe estar, candida, provavelmente ele não viu que o texto do Saramago terminava com um pedido para eu explicar, “por favor”, o meu ponto de vista. Eu limitei-me a corresponder a esse pedido.

  9. Olinda on Julho 8th, 2009 22:57

    Acho que o José Mário Silva está a ser demasiado picuinhas com o José Saramago. Sem que eu seja uma entendida no assunto, isto é, o que é ou não ser-se blogger, parece-me que a liberdade e democracia no que respeita à expressão na internet também se aplica aos blogs. (questão de lógica).

    Mas isso sou eu que digo, porque apesar de blogger há vários anos não percebo nada do assunto, e acho até ridículo que já haja definições do que é ser-se blogger, ou coisas do mesmo género.

    No que toca ao meu senso comum acho que o José Mário Silva exagerou. Ou então, queria conversa… Como aquilo que ele fala, da ironia de José Saramago ter passado a ser blogger quando lhe respondeu. Ele também é irónico, ao não confessar que era mesmo isto que queria: a resposta.

  10. Uma notícia falaciosa | Bibliotecário de Babel on Julho 9th, 2009 0:24

    […] | Bibliotecário de Babel em Uma resposta de José Saramago (com uma pergunta lá dentro)Olinda em Resposta a uma respostaJosé Mário Silva em Resposta a uma respostacandida em Resposta a uma respostaPortuguês em Dia […]

  11. Guinevere on Julho 10th, 2009 1:56

    Depois de varios dias sem ler O Caderno, me surpreendi com dois textos, o primeiro “Do sujeito sobre si mesmo” e o segundo, “Critica” tocaram exatamente em umas ideias que tenho ha algum tempo: a primeira è que como è possivel que o sr. Saramago a quem leio com muito interesse, porque gosto dos seus livros, pode ser tao simples e radical na sua mente politica, isso è incompreensivel para mim. A segunda ideia è que ele deve ser muito pretencioso ja que sòmente sua pessoa pode opinar , ja que seu blog nao da direito a resposta. Ou seja, ele è dois em um. E isso explica seu afeto pelo Fidel Castro. Nao critico a sua ilusao infantil pelo comunismo, ja que seria terrivel ter que assumir depois dos 80 que a pessoa esteve errada a vida toda. Mas, criticar o canalhismo de berlusconni ainda quando estou de acordo com a opiniao, obviamente sem ofender aos italianos; mas, ao mesmo tempo calar ante as injusticas sofridas pelo povo cubano, isso sim, è um osso duro de roer.
    Obrigado por permitir dizer ao Sr. saramago o que sinto por meio de seu blog.
    Um abraco

  12. anónimo on Julho 12th, 2009 14:25

    esta polémica está ao nível das do condomínio cá do prédio…

  13. Exit Saramago | Bibliotecário de Babel on Agosto 31st, 2009 19:11

    […] Embora não fosse um blogger no sentido que normalmente lhe atribuímos (pelos motivos que enumerei aqui), era uma voz singular e muitas vezes desarmante, a voz de um Nobel que não precisa, […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges