Rogério Casanova sobre David Foster Wallace

«É um fenómeno sazonal americano: aproximadamente de 10 em 10 anos, um tijolo enciclopédico é depositado no zeitgeist, elevando a fasquia literária para os contemporâneos mais ambiciosos. Foi assim com The Recognitions, Giles Goat-Boy e Gravity’s Rainbow. Depois de um hiato minimalista, e numa altura em que a elefantite pós-moderna parecia condenada a ser uma nota de rodapé, David Foster Wallace decidiu adicionar-lhe mais quatro centenas de (precisamente) notas de rodapé, precedidas por novecentas exuberantes páginas de génio. Infinite Jest não foi apenas o livro dos anos 90 – foi o livro de uma geração. Avaliá-lo apenas como a derradeira manifestação de um gigantismo moribundo, contudo, seria cometer a pior espécie de injustiça elegíaca.
(…) DFW acreditava que a mediação de uma consciência é a característica central da ficção literária (…). O realismo nunca o inquietou; apenas a anestesia induzida pelas suas manifestações mais sacramentais. A sua grande contribuição foi o apontar de uma terceira via: um meio-caminho entre os excessos da meta-ficção e os defeitos do minimalismo; entre a elevação da consciência narrativa a protagonista do texto (processo cujo corolário é uma ironia mórbida e um exibicionismo vazio) – e a auto-imolação dessa consciência narrativa, em que o texto é cinzelado até uma impessoalidade árida e falsificada. DFW acreditava que era possível restaurar a função ética da literatura sem abandonar a ousadia formal e a puerilidade rebelde.
Infinite Jest foi a concretização desse programa teórico. Uma exploração magistral da afinidade metafísica entre arte, entretenimento e vício; e o retrato escrupuloso de uma cultura tecnofílica em crise, onde qualquer elo pessoal é soterrado por avalanches de informação. O romance formalmente mais ambicioso da década de 90 era animado por uma compaixão genuína, e exaltava sem pruridos as recompensas da empatia. Don Gately, o seu núcleo emocional, é uma das mais comoventes personagens da literatura americana.
O legado impossível de DFW é a sua voz: omnívora, generosa e quase sempre hilariante, transmitida num registo coloquial, mas com um vocabulário infinito. A espaços, assemelha-se a uma redução ao absurdo da auto-reflexividade, mas os seus excessos são o veículo perfeito não apenas de um intelecto colossal, mas de um inimpugnável sentido ético. DFW era assombrado por um constante pânico moral: estava ciente da propensão das palavras para falsificarem os mais genuínos conteúdos emocionais, e da tremenda facilidade em forjar uma autenticidade instantânea através de acrobacias estilísticas. Os seus melhores parágrafos – e a sua incapacidade para a compressão – são um resultado directo dessa angústia e desse combate. DFW triunfou quase sempre, mas não é claro que o tenha percebido.
Como todos os génios, ocupou terreno virgem e destruiu a ponte. Deixa uma mão-cheia de obras-primas e dezenas de promessas por cumprir. Deixa órfãos e imitadores; mas não deixa sucessores.»

[Excerto de um texto de Rogério Casanova, publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges