Seis poemas de António Barahona

COMPOSIÇÃO

Sequer um gesto fica por esboçar
nem hora sem a sua liturgia:
realidade inteira a respirar
Deus, por todos os poros, à porfia.

Só então o poeta bebe a bica
e, discreto, compõe versos à lupa.

***

A GRANDE OBRA

Frondoso espírito de tantas páginas.

Estas partículas de lume pegam
fogo à água, e o símbolo assume
seu aspecto de som em labaredas.

***

PULSAÇÃO

Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d’árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sôpro do seu sangue num coágulo.

***

LARGO DO BARÃO DE QUINTELA

A estátua da verdade está sempre de braços partidos
cada vez que vou a caminho dos teus braços inteiros

***

ARTE POÉTICA

Por cada verso feito quantas noites
desfeitas e mulheres transfiguradas,
madrugadas, cidades, auto-estradas,
montes de cartas, mortos e ausentes.

Por cada verso feito me despeço
dêste mundo, em pedaços repartido,
pois só consigo reunir-me quando fundo
império de poema nunca escrito.

***

CADÁVER ESQUISITO HETERODOXO COM JOÃO RODRIGUES NO CAFÉ GELO EM 1961

Intimidade côr de bombazina
a cercar uma aranha de bambú
passa um polícia a cheirar a benzina
parte-se uma vidraça e surges tu

Sobrenadavam carpas na baía
um novo ritmo que vem de Las Vegas
daquele lado já nada se ouvia
quadrilha de gaivotas quase cegas

Por dentro era o som dum violino
por fora havia um vago marulhar
menos que nunca penso no destino
e bebo a tua sombra devagar.

[in O Som do Sôpro, Poesia Incompleta, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges