Série Lydia Davis (1)
AMIGOS ABORRECIDOS
Nós só conhecemos quatro pessoas aborrecidas. Aos nossos outros amigos consideramo-los muito interessantes. Contudo, a maior parte dos amigos que consideramos interessantes consideram-nos aborrecidos: os mais interessantes consideram-nos os mais aborrecidos. Dos poucos que estão algures entre um extremo e o outro, daqueles por quem temos um interesse recíproco, acabamos por desconfiar: em qualquer altura, sentimos, eles podem tornar-se demasiado interessantes para nós, ou nós demasiado interessantes para eles.
[in Samuel Johnson is indignant, de Lydia Davis, Picador, 2001; tradução de JMS]
Versão original:
BORING FRIENDS
We know only four boring people. The rest of our friends we find very interesting. However, most of the friends we find interesting find us boring: the most interesting find us the most boring. The few who are somewhere in the middle, with whom there is reciprocal interest, we distrust: at any moment, we feel, they may become too interesting for us, or we too interesting for them.
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Caro JMS,
Como deves estar farto de saber, Lydia foi casada com Paul Auster no quadriénio 1974-78 (tiveram um filho, o problemático Daniel, que aos 20 anos se envolveu com o conhecido “rapaz da noite” Michael Alig que assassinou o seu dealer no seu apartamento, esquartejando-o mais tarde, quando o corpo já estava em decomposição e o cheiro se havia tornado insuportável; Alig desfez-se das partes do corpo arremessando-as em sacos de plástico no rio Hudson; todas as provas ilibaram Daniel, que era um dos muitos conhecidos de um noctívago de NY daquele calibre; Siri Hustvedt – a 2.ª mulher de Auster e mãe da linda Sophie – inspirou-se no enteado para compor um dos personagens no seu fabuloso 3.º romance, Aquilo que eu amava).
Bom mas regressando às histórias de Lydia, há uma, que faz parte do seu livro original de 1997 Almost No Memory, intitulada “St. Martin” que Auster conta na 2.ª história do seu Caderno Vermelho (The Red Notebook, 1993). Ambos relatam a sua aventura por França, a fome que passaram traduzindo poetas franceses, mas sobretudo o (pouco) dinheiro que ganharam a guardar uma casa de campo no Sul de França, que ao mesmo tempo serviu de refúgio para pôr em prática as aspirações literárias de ambos.
Abraço,
André