Série Lydia Davis (4)

O TANQUE DOS PEIXES

No supermercado, fico a olhar para quatro peixes dentro de um tanque. Eles nadam em formação paralela contra uma pequena corrente criada por um jacto de água, e vão abrindo e fechando a boca e olhando para o infinito com o único olho, de cada um, que consigo ver. Ao observá-los para lá do vidro, pensando que não poderiam estar mais frescos para serem comidos, assim vivos como estão, e ponderando se devo fazer um para o jantar, vejo também, como se estivesse atrás ou através deles, uma forma maior e sombria que escurece o tanque, é o que existe de mim, o seu predador, no vidro.

[in Almost no memory, de Lydia Davis, Picador, 1997; tradução de JMS]

Versão original:

THE FISH TANK

I stare at four fish in a tank in a supermarket. They are swimming in parallel formation against a small current created by a jet of water, and they are opening and closing their mouths and staring off into the distance with the one eye, each, that I can see. As I watch them through the glass, thinking how fresh they would be to eat, still alive now, and calculating whether I might buy one to cook for dinner, I also see, as though behind or through them, a larger, shadowy form darkening their tank, what there is of me on the glass, their predator.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges