Série Lydia Davis (6)

MILDRED E O OBOÉ

Ontem à noite, Mildred, a minha vizinha do andar de baixo, masturbou-se com um oboé. O oboé arquejou e guinchou dentro da sua vagina. Mildred gemeu. Mais tarde, quando pensei que tivesse acabado, começou a gritar. Eu continuei deitada na cama com um livro sobre a Índia. Conseguia sentir o prazer dela a passar através do soalho até ao meu quarto. É óbvio que pode haver outra explicação para o que ouvi. Talvez não fosse o oboé a penetrar Mildred, mas antes o oboísta. Ou talvez Mildred estivesse a fustigar o seu cãozinho nervoso com algo esguio e musical, como um oboé.
Mildred, a que grita, vive por baixo de mim. Três mulheres jovens do Connecticut vivem por cima de mim. Há ainda uma senhora pianista, com duas filhas, no andar nobre e algumas lésbicas na cave. Eu sou uma pessoa discreta, uma mãe, gosto de me deitar cedo – mas como posso levar uma vida normal neste prédio? Ele é um circo de vaginas aos saltos e aos pinotes: treze vaginas e apenas um pénis, o do meu filho pequeno.

[in Break it Down, de Lydia Davis, Farrar, Straus and Giroux, 1986; tradução de JMS]

Versão original:

MILDRED AND THE OBOE

Last night Mildred, my neighbor on the floor below, masturbated with an oboe. The oboe wheezed and squealed in her vagina. Mildred groaned. Later, when I thought she was finished, she started screaming. I lay in bed with a book about India. I could feel her pleasure pass up through the floorboards into my room. Of course there might have been another explanation for what I heard. Perhaps it was not the oboe but the player of the oboe who was penetrating Mildred. Or perhaps Mildred was striking her small nervous dog with something slim and musical, like an oboe.
Mildred who screams lives below me. Three young women from Connecticut live above me. Then there is a lady pianist with two daughters on parlor floor and some lesbians in the basement. I am a sober person, a mother, and I like to go to bed early – but how can I lead a regular life in this building? It is a circus of vaginas leaping and prancing: thirteen vaginas and only one penis, my little son.



Comentários

3 Responses to “Série Lydia Davis (6)”

  1. xico on Fevereiro 10th, 2010 0:13

    Sinceramente soou-me melhor em português. Parabéns.

  2. José Mário Silva on Fevereiro 10th, 2010 10:34

    Obrigado.

  3. csd on Fevereiro 10th, 2010 11:29

    também a mim.

    qual é a editora?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges