Sete poemas em prosa de Vergílio Alberto Vieira

1
Antes da predição do áugure acender o fogo sobre a terra, e da ágil consaguinidade os tornar rosto de mulher, já eles, nostálgicos dos nove círculos do céu, tinham deixado o grande sono dos mortos para voltar a ser sinal do dia.

2
Quebrado o vínculo, que os unia à inquietude das manhãs, iniciam o canto, que a luz dará à noite; e a natureza, às coisas irreais.

3
Reféns do espelho de água, pelo rumor do sangue escalam o espaço com que a flor do algodoeiro coroou de neve os cúmulos do meio-dia.

4
Para que outra fosse a origem, e outro o ardor da febre, que a alma adiantou à lei da gravidade, sobre o umbral fixam o número que, há muito, apagou a idade numa campa de criança.

5
Agasalhados da altura, descem em círculo ao centro da memória, que o vaso de cinza tornou oferenda, no auge da cegueira.

6
Na clareira, que o verão cercou de bruma, e o sol, de vidros, pelos muros dos quintais, caem as sombras, que a sal cozeu, e a raiz esventrou.

7
Junto à casa, que a ruína do sangue precipitou sobre o caminho, esperam, então, que a floração da romãzeira com eles celebre o que ficou do assombro – última oitava da primavera.

[da sequência “Cinzas de Pássaros Mortos”, in Melancholia Perennis, Livros de Horas, 2009]



Comentários

One Response to “Sete poemas em prosa de Vergílio Alberto Vieira”

  1. venancio on Agosto 30th, 2009 8:01

    Lindo, lindo.

    O «2», esse, dia após dia se testemunha.

    Que bom a poesia ser (às vezes) verdade.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges