Sete tercetos de João Rasteiro
No centro do mundo o vulcão.
As palavras arquitectam a morte,
a poesia as criaturas pasmadas.
***
A teia ama os casulos
como uma constelação.
A ínfima boca do azul.
***
Na efervescência das crias
as palavras como invasoras.
A crueldade como bálsamo.
***
Uma boca deixo ao dilúvio.
Direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.
***
Depois do dilúvio a labareda,
nada já há a dizer em tua graça
pois as vozes ardem em silêncio.
***
No perfil da flor os anzóis,
a máscara perfeita – corpo
vociferando a sua depravação.
***
O poema serve de mortalha,
ignoro de que ocultos metais
é constituída a arte dos dedos.
[in A Divina Pestilência, Assírio & Alvim, 2011]
Comentários
4 Responses to “Sete tercetos de João Rasteiro”
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 29 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 22 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 16 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 9 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 2 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 25 de Novembro de 2016
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- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 11 de Novembro de 2016
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Gosto de kaikus. Dizem tudo em poucas palavras…a arte está em consegui-lo.
Não têm os Haikus de ser constituídos por 5-7-5 sílabas?
Cumprimentos,
Se quisermos ser rigorosos, sim, têm de ter 17 sílabas, pela ordem que indica. Mas é comum chamar haikus a poemas de três versos curtos, como estes. Outra hipótese, uma vez que o livro em causa tem uma estrutura e epígrafes que remetem para a ‘Divina Comédia’ de Dante, é chamar-lhes apenas tercetos.
Vou mudar o título do post.
Desde já, um obrigado ao José Mário Silva por colocar aqui esta referência ao livro. Agradeço (de forma indirecta) a quem comentou, e aproveito para dizer que o José Mário Silva tem razão no que diz, pois embora passem por haiku ou haikai, na verdade, são essencialmente tercetos, pois não cumprem na íntegra a métrica do haiku. Como diria e definiu estes tercetos (quando os realizava) o poeta brasileiro Paulo Leminski, e que eu adoro, são “Tercetos bastardos”.
Abraço a todos e viva a poesia.
joão rasteiro