Sete tercetos de João Rasteiro

No centro do mundo o vulcão.
As palavras arquitectam a morte,
a poesia as criaturas pasmadas.

***

A teia ama os casulos
como uma constelação.
A ínfima boca do azul.

***

Na efervescência das crias
as palavras como invasoras.
A crueldade como bálsamo.

***

Uma boca deixo ao dilúvio.
Direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.

***

Depois do dilúvio a labareda,
nada já há a dizer em tua graça
pois as vozes ardem em silêncio.

***

No perfil da flor os anzóis,
a máscara perfeita – corpo
vociferando a sua depravação.

***

O poema serve de mortalha,
ignoro de que ocultos metais
é constituída a arte dos dedos.

[in A Divina Pestilência, Assírio & Alvim, 2011]



Comentários

4 Responses to “Sete tercetos de João Rasteiro”

  1. Olinda Melo on Abril 8th, 2011 16:12

    Gosto de kaikus. Dizem tudo em poucas palavras…a arte está em consegui-lo.

  2. João Neto on Abril 8th, 2011 17:34

    Não têm os Haikus de ser constituídos por 5-7-5 sílabas?

    Cumprimentos,

  3. José Mário Silva on Abril 8th, 2011 23:53

    Se quisermos ser rigorosos, sim, têm de ter 17 sílabas, pela ordem que indica. Mas é comum chamar haikus a poemas de três versos curtos, como estes. Outra hipótese, uma vez que o livro em causa tem uma estrutura e epígrafes que remetem para a ‘Divina Comédia’ de Dante, é chamar-lhes apenas tercetos.
    Vou mudar o título do post.

  4. João Rasteiro on Abril 11th, 2011 10:02

    Desde já, um obrigado ao José Mário Silva por colocar aqui esta referência ao livro. Agradeço (de forma indirecta) a quem comentou, e aproveito para dizer que o José Mário Silva tem razão no que diz, pois embora passem por haiku ou haikai, na verdade, são essencialmente tercetos, pois não cumprem na íntegra a métrica do haiku. Como diria e definiu estes tercetos (quando os realizava) o poeta brasileiro Paulo Leminski, e que eu adoro, são “Tercetos bastardos”.
    Abraço a todos e viva a poesia.

    joão rasteiro

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges