Silêncios, elipses, epifanias
Pequenos Mistérios
Autor: Bruce Holland Rogers
Título original: The Keyhole Opera
Tradução: Luís Rodrigues
Editora: Livros de Areia
N.º de páginas: 234
ISBN: 978-989-81180-2-8
Ano de publicação: 2007
Querem saber qual foi para mim a maior revelação de 2007, no que à literatura estrangeira publicada em Portugal diz respeito? Então anotem: Bruce Holland Rogers. Não é ainda um nome de primeira linha nos EUA, longe disso, mas tem tudo para vir a ser, sobretudo se se libertar da conotação com o género fantástico, que como se sabe é um empecilho para quem pretenda triunfar fora daquela espécie de “gueto” literário.
Aos 49 anos, este nativo de Tucson, Arizona, já ganhou dois prémios Nebula, um Bram Stoker e dois World Fantasy Awards. Mas reduzi-lo a um só género seria tão injusto como dizer que Eusébio só sabia marcar golos de penalty.
Basta ler este precioso volume de contos, editado com o habitual esmero gráfico da Livros de Areia, para perceber que Rogers não é catalogável. Embora tenha sido com esta obra que obteve o World Fantasy Award em 2006, não esperem narrativas com naves espaciais, universos paralelos ou relatos de História alternativa. Há vários momentos de terror e mistério, sim, passam-se por vezes coisas estranhas, obscuras e inexplicáveis, sim, mas também há muitos contos sobre a vida de todos os dias, com personagens normalíssimas em situações normalíssimas, pessoas que vão às compras, dão aulas e podiam estar num livro de Raymond Carver. Ou seja, a escrita de Rogers é sempre fantástica, se fantástica for mais um adjectivo do que um substantivo.
O único denominador comum dos 40 contos aqui reunidos é a concisão. Bruce Holland Rogers é um mestre do que se convencionou chamar short short stories (histórias mesmo muito curtas) e oferece-nos em Pequenos Mistérios um vasto catálogo de textos em que a dimensão mínima é inversamente proporcional ao efeito que a prosa — muito trabalhada, com requintes de ourives — provoca no leitor desprevenido.
Rogers tem um fraquinho por fábulas e alegorias, por vezes com inspiração mitológica. Não faltam homens que se tornam golfinhos ou corações que se convertem em melros de asa vermelha. E variações sobre o medo, a morte, a esperança, o mundo dos sonhos, sempre com um desenlace irónico que coloca as histórias a salvo de moralismos fáceis. Há ainda divertidíssimos exercícios sobre a própria escrita literária, momentos em que Rogers espicaça o leitor ou lhe tira o tapete, mostrando os bastidores do jogo ficcional e a forma como o autor todo-poderoso, lá atrás, na sombra, vai mexendo os cordelinhos, as alavancas e as roldanas.
As melhores narrativas, porém, são as mais simples de todas, aquelas que não carecem de quaisquer artifícios e parecem existir desde sempre, à espera de quem fosse capaz de as contar. Histórias cheias de silêncios, elipses, gestos precisos e suaves epifanias. Histórias inesquecíveis, como Os poetas menores de San Miguel County, Para leste, Brancos mortos ou O plano maior que ofusca o céu e a terra.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
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Comentários
6 Responses to “Silêncios, elipses, epifanias”
- Por uma Esquerda que não permaneça, de braços caídos, passiva e mole, a assistir ao colapso de todas as suas conquistas em 16 de Maio de 2012
- Carlos Fuentes (1928-2012) em 16 de Maio de 2012
- Noites do ‘Mauritânia’ em 15 de Maio de 2012
- As praias do Arizona em 15 de Maio de 2012
- Balanço da Feira do Livro em 14 de Maio de 2012
- O que aí vem (Cavalo de Ferro) em 14 de Maio de 2012
- A ‘Leitura Furiosa’ em voz alta em 13 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 13 de Maio de 2012
- Queres que te faça um desenho? em 13 de Maio de 2012
- A última noite do mundo em 12 de Maio de 2012


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Bem gostava de o ler, pois já tentei comprá-lo em vários sítios (fnacs, bertrands, barata e chiado abaixo) mas nada… mas como a esperança é a última é morrer…
pbp,
Um conselho: tenta encomendar directamente à editora, no site http://www.livrosdeareia.com . Por essa via consegues arranjar o livro de certeza.
Caro/a PBP, das livrarias que referiu, só não estamos na Bertrand (aguardamos resultados das negociações para a distribuição lá). De resto, pode encontrar os nossos livros nesses pontos de venda, e se procurar ainda (falo do centro de Lisboa) em livrarias como a Almedina Saldanha, a Círculo das Letras, as Bulhosas (em cuja loja de Campo de Ourique esse livro chegou a estar em cima do balcão), só por distracção não será encontrado.
Mas obrigado por procurá-lo, e, como o José Mário Silva escreve, pode sempre bater-nos à porta.
Pedro Marques
http://www.livrosdeareia.com
O livro encontra-se facilmente nas Fnacs, contando que se procure no esconso para onde são remetidas (algumas) ficções científicas e fantásticas. Pelo menos foi lá que o vi pela última vez.
(E enquanto lá estiver, o tradutor agradece uma espreitadela ao _Grendel_ de John Gardner, ignorando convenientemente a capa e o subtítulo, que nada contribuem para o livro. WINK, WINK, NUDGE, NUDGE.)
[...] quem a produz e quem a lê”. Lado a lado, estarão um gigante (Bruce Holland Rogers, autor de Pequenos Mistérios) e um pigmeu (este vosso humilde escriba). Nesse mesmo dia 16, tem início o Curso de Escrita [...]
[...] mim e o Bruce Holland Rogers, era a leitura mútua de histórias. Eu leria um conto do seu livro Pequenos Mistérios (inclinava-me para este, mas O Rei Duende talvez tivesse mais efeito na assistência), enquanto o [...]