Sístole e diástole

«Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido ao alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da electricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.»

[in Os Malaquias, de Andréa del Fuego, Língua Geral, 2010]



Comentários

3 Responses to “Sístole e diástole”

  1. Ricardo on Outubro 26th, 2011 1:14

    Espera-se que a publicação deste lado do oceano seja para logo.

  2. Maria Manuel on Outubro 27th, 2011 9:54

    Agradeço ter dado a conhecer :)

  3. Fabio on Outubro 27th, 2011 21:14

    Ricardo, esse ainda parece ser um problema. Aqui também demoramos a publicar os autores portugueses. Isso começou a mudar depois da morte de Saramago, suprema ironia…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges