Sítios para ler (em Lisboa e arredores)

Quando se trata de ler, não sou esquisito. Leio no metro em hora de ponta, em esquinas ventosas, em salas de cinema enquanto as luzes não se apagam, nas repartições de finanças, no supermercado, na fila para o Multibanco, ao volante quando o semáforo está vermelho, etc. Até a andar na rua leio, valendo-me da visão periférica, de uma passada cautelosa e da condescendência dos outros peões. Com isto quero dizer que a leitura não exige condições ideais nem paisagens propícias. É óbvio que prefiro fazê-lo numa esplanada (por exemplo, a do Atira-te ao Rio, no Ginjal; ou a do recém-baptizado Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, na Graça) do que numa cave em Massamá, mas a leitura, quando os livros valem mesmo a pena, empurra-nos para dentro do texto, para o rectângulo da página, e a realidade que nos cerca (seja belíssima ou banal) torna-se difusa, deixa de ter grande importância. Ainda assim, há de facto alguns lugares onde fui um leitor feliz: os relvados da Gulbenkian, à sombra, com uma brisa suave a agitar as folhas das árvores; uma mesa junto ao lago dos patos no Jardim da Estrela; o Kaffeehaus do Chiado, com muita cafeína e apfelstrudel; um certo degrau nas escadinhas da Rua Cidade de Manchester, ali tão perto de casa.

[Texto publicado na edição de hoje da revista Time Out Lisboa]



Comentários

5 Responses to “Sítios para ler (em Lisboa e arredores)”

  1. Miguel Filipe M. on Agosto 20th, 2009 2:09

    Partilho da demência. Mas, se me permite, aconselho a que, pela sua saúde, evite ler enquanto caminha. Já aconteceu comigo (dizem que é quando a patologia se revela irreversível): uma frase dos diabos, daquelas que dão cabo mesmo da melhor esguelha, que atarantam a visão periférica, que apagam por um segundo o mundo e um tipo dá por si no meio da estrada com um livro nas mãos a travar o trânsito em hora de ponta. Suicidário, dirão alguns. Para outros, revolucionário.

  2. José Catarino on Agosto 20th, 2009 9:37

    Leio em todo o lado, mas o meu local favorito é na cama. É uma das razões do meu cepticismo quanto à real utilidade dos leitores de ebook.

  3. Rui Viegas on Agosto 20th, 2009 9:53

    Zé Mário, nunca te vi no Kaffeehaus… É bom sim senhor. Janelas grandes e muita luz. Mas o meu preferido é o 39 degraus da Cinemateca

  4. Gerana Damulakis on Agosto 20th, 2009 16:51

    Também partilho do vício, mas andando… é bom seguir o conselho do comentário acima. Lugar legal é na sala de espera do dentista ou médico.

  5. G.S. on Agosto 25th, 2009 14:18

    … partilho da mesma opinião! Leio em qualquer lado, a todo o momento, nem que seja por fracções de ‘momentos’ ! No entanto, ando com mais do que um livro no carro, quando saio, e selecciono a leitura segundo o local!
    Por exemplo, na praia procuro ler livros de capas mais resistentes para que não se degradem muito, já que sou uma leitora que vê/sente o livro como objecto de culto.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges