Sob o signo de Camões

Um poema de José Luiz Tavares, no dia de Luiz Vaz:

RETRATO DO POETA
AOS QUARENTA E DOIS

Quarenta e mais dois são os contados
anos, de parcos milagres, nulas maravilhas,
créditos de quantos dias hipotecaste
ao fingido desvelo dessa mão afoita.

Partias. E eram já estendal de arroteado pó
as várzeas de vário verde, lêveda lembrança
de quando vós, senhora de navegáveis curvaturas,
vos arregaçáveis, estendida sobre um dealbado
chão de sargaços, para a impante glória
desse atamancado coração
rendido à ressaca que o rilha p’la calada.

Quarenta e mais dois, não de enganos tantos,
mas da certeza que estar vivo é soluço
que descamba em ruivos dessangrados versos,
suados colhões belicosos, inda tão lembrados
dos desvelos, amorios — ó mistério de leveza —
que lhes davam mãos perdulárias
à mesa posta da penúria.

Quarenta e mais dois, e eis-te desconforme
ao ar do tempo, cão que ainda se eriça
ao tartamudo rilhar do vento à flor das gáveas,
ao arfar recidivo e rombo,
à sílica golfando nos costados lacerados.

Céus de lua nova, dai-lhe um firme ombro
para os súbitos rasgões da saudade,
arte para quanta ginga a vida requeira
— embora a bigorna dos meses crepite
silenciosa nos alveólos, aos quarenta e mais dois,
dores, tirando certos avulsos cagaços,
apenas as poeticamente repartidas por alguns
celebrados livros que lhe não fizeram mais
refinado em meio a tanta cabronada.

Quarenta e mais dois, quase novo, quase velho
o rosto que sombriamente o espelho lhe devolve,
mas ainda não menos impoluto que o infante ranhoso
dos valados, por isso, ó vós castrados para a vida,
vós que tendes por expertise a salivante
arte do broche, tomai lá disto em forma de pum
e remoei-lo, ó vorazes milhafres do zunzum,
tal cautério para a vossa angústia de capados.


José Luiz Tavares



Comentários

3 Responses to “Sob o signo de Camões”

  1. Mariane on Junho 10th, 2009 20:30

    O compartilhando leituras é um novo blog que está no ar. Quando puder faça uma visitinha e deixe um comentário. Obrigada!!!

    compartilhandoleituras.blogspot.com

  2. estranho... on Junho 11th, 2009 16:54

    Deixem ver se entendo: este “poeta” arrota uma posta de pescada neste post (http://bibliotecariodebabel.com/geral/lembrete-34/) queixando-se da falta de atenção de JMS sobre um outro poeta que ganhou o Prémio Camões. Agora, JMS publica uma versalhada do 1.º “poeta” e ele já não está zangadinho. É assim que acaba a historinha, ou a Carochinha ainda volta?

  3. venancio on Junho 14th, 2009 18:38

    Portentoso poema.

    Por um despiste dos meus neurónios (devido a quê, bons céus?), li-o como se de um poema de Jorge de Sena se tratasse. Só depois reparei bem. Era do Zé Luís.

    E decidi que o tinha lido optimamente.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges