Sobre a universalidade da literatura

Na nona mesa das Correntes d’Escritas, a Margarida Vale de Gato, uma das organizadoras do colóquio sobre Edgar Allan Poe que daqui a nada começa na Faculdade de Letras de Lisboa (ver post anterior), leu o seguinte texto, que em minha opinião merece, depois daquela passagem efémera pelo Auditório Municipal da Póvoa do Varzim, uma segunda vida:

«1. A universalidade da literatura e a originalidade da escrita

A universalidade da literatura é uma ideia bonita, especialmente para quem a ela se dedica, já que todos nós gostamos de pensar que o que fazemos é importante, e até mais do que isso, essencial. Gostamos de pensar que a necessidade da literatura faz parte: 1) duma necessidade do homem e da mulher se exprimirem artisticamente desde o princípio dos tempos; 2) duma necessidade de configurar através da palavra explicações para o mundo e para a identidade. Daí que uma das evidências que se pode apresentar para a universalidade da literatura seja a sua base quer num número restrito de temas comuns (o amor, a morte, a guerra, a loucura, o medo da loucura) quer mesmo num número possivelmente quantificável de enredos que nos vêm desde os mitos, os quais sabemos, tais como os contos tradicionais, repetirem-se em culturas separadas por grandes distâncias quer geográficas quer temporais.
A isto, porém, pode contrapor-se que a literatura – o que torna um texto literário – não é propriamente isso. Um enredo não faz necessariamente uma obra literária e os temas comuns (amor, morte, guerra, loucura) podem ser expressos de outras formas que não literárias. Nem sequer é a linguagem que faz a literatura. Como dizia ontem Santiago Gamboa: “nós, os escritores, não representamos adequadamente a humanidade; nem a realidade nem a linguagem na sua origem são literárias.”
Muitos defendem que literatura não é o que é dito, mas o modo como é dito. E aí surge a questão do estilo, de onde advém a necessidade de originalidade – que não convive confortavelmente com a universalidade. Se o universal é o comum, e nós acreditarmos no título de uma outra mesa aqui das Correntes, “é literatura tudo o que não é evidente” – portanto, justamente, o único, o original, o marginal –, em que ficamos?
Não creio que a universalidade da literatura seja uma existência, mas antes uma aspiração. A universalidade da literatura só pode fazer sentido como utopia que mova o escritor. E se pensarmos assim, pode dizer-se que pode ser ambição do escritor o inscrever-se na humanidade, o dar o seu contributo único, individual – subversivo, original – para tornar o universal mais amplo.
Um escritor tem um material, a linguagem, com uma série de convenções e aplicações com possibilidades ilimitadas da comunicação. Para mim, é na função comunicativa da linguagem que reside o seu potencial universal; mas o escritor vai buscar esse potencial para nele fazer preferencialmente outra coisa: expressar arte, expressar-se a si. Assim, voltamos ao conflito: o escritor poderá idealmente querer comunicar universalmente, mas antes de tudo quererá, penso, expressar-se individualmente, num registo de diferença, porque acha que tem coisas a dizer ao mundo, ou sobre o mundo, que o mundo ainda não previu nem incluiu.

2. A Tradução como o vento das escritas

Eu, que sou tendencialmente de ideias fixas, e que desde pequena meti na cabeça que queria viver a escrever, curiosamente, partindo dum amor à literatura fui desembocando cada vez mais – primeiro por um percurso pessoal (passando a adolescência nos Estados Unidos, conheci o trânsito linguístico) e depois profissional (até agora ainda só consegui viver da escrita como tradutora) – naquilo que na literatura se pode comunicar. Como tradutora, estou bem melhor com a universalidade da literatura, visto que contribuo para que se liberte da sua ancoragem mais nativa por contraposição às outras artes (música, pintura, fotografia), no esforço de superação das suas contingências, primeiro linguísticas, mas também culturais, espaciais e temporais. Porque um tradutor não só atravessa línguas, o tradutor atravessa também contextos, espaços, tempos. Nesse sentido, uma metáfora que lhe serve pode ser retirada da primeira parte do título desta mesa: o vento.
Várias imagens bíblicas – possivelmente outros tantos mitos desses que dizemos serem universais – servem a tradução. O mais conhecido será o da Torre de Babel, de que um dos meus teóricos preferidos sobre o tema, George Steiner, nos fala, e que serviu também ao grande tradutor português João Barrento para expor as suas ideias sobre tradução, O Poço de Babel. Saber se foi vingança ou ardil de Deus condenar os homens a falar diferentes línguas, por ousarem pretender que um monumento chegasse à sua altura, é ainda uma questão em aberto. Em conversa com Ana Luísa Amaral, com quem tive a honra também de aprender muito neste encontro – e com cujos livros tenho aprendido muito ao longo da vida – ela falava-me no mistério, também bíblico, da Visitação. A ideia da visitação é muito cara a uma concepção romântica da poesia, e na tradução aplica-se muitas vezes a um estado de possessão do tradutor pelo mesmo espírito que animou o autor. É, também, uma bela imagem, mas para mim, não é ainda a que me serve em tradução, porque em tradução, mais do que me imaginar em comunhão com um autor, eu considero-me em trânsito entre este e o leitor. Defendo o tradutor como alguém que deve ter a humildade e a gratidão de ser um veículo. Daí que a metáfora bíblica mais recorrente no meu imaginário de tradução seja a do Espírito Santo, o sopro ou o vento do Deus. Também gosto, confesso, do Espírito Santo que se divide em línguas de fogo na Ceia de Pentecostes e manda os apóstolos para fazerem entender a palavra divina pelos homens de todas as terras e idiomas. Sendo uma imagem de graça e iluminação, o Espírito Santo não revela a Verdade, não é uma visitação que invista o visado dum conhecimento especial que lhe permita chegar à Fonte, antes dá o meio pelo qual Deus se faz Homem; na Catequese explicavam-me que o Espírito Santo era o amor entre o Pai e o Filho, e também o Amor que levou o Pai a fazer-se Filho para viver e ser frágil ao ponto de morrer com os Homens. Para mim, a tradução é essa versão comunicável da graça, essa versão que toma um determinado corpo para chegar ao Outro.
Não me empenho especialmente em defender o tradutor como um autor, sequer como co-autor, nem tampouco, por mais lisonjeador que isso possa ser, como criador. Claro que o tradutor também cria, ou sobretudo recria. É, todavia, um criador secundário, e deve depender sempre do que foi gerado pelo autor. Habituei-me a pensar no autor como criador de universos e no tradutor como seu satélite; cada vez penso mais nesse satélite como uma sonda, um vaivém espacial, que reporta as constelações, as crateras e os mares do autor aos homens cá na terra – mais propriamente, recorrendo ao título duma mesa de ontem, cá no bairro, cá na rua. Ao tradutor aplica-se certamente o lema de pensar globalmente e agir localmente, quando ele actualiza um texto – por exemplo, uma das obras ditas universais da literatura – para o público da sua língua, da sua época, e aí ele é mais um executor do que um criador. E, no entanto, se não fosse essa tarefa, às vezes tão circunscrita (um tradutor de uma peça de teatro, por exemplo, que trabalha com encenadores e actores pensando num público-alvo específico), os clássicos, esses tais universais da literatura, não perdurariam enquanto universais. Daí que numa formulação feliz, Walter Benjamin, no seu ensaio precisamente intitulado “A tarefa do tradutor”, fale da tradução como uma “sobre-vida”, garantindo a sobrevivência do texto e insuflando-o de novas vidas. No entanto, sobre este ensaio, devo acrescentar que é para mim um texto conflituoso, precisamente porque Benjamin está, acho eu, muito preso a uma ideia de comunhão entre autor e tradutor que lhes permita recuperar uma espécie de linguagem pura. Tal como a ideia de universalidade de literatura, também acho bonito o pensamento de Benjamin, mas não me serve. A tradução, do meu ponto de vista, existe também para se sujar e promiscuir com o leitor. Para mim, e pegando na oposição que antes delineei entre a ambição de uma comunicação universal e a expressão artística original, a diferença entre tradução e literatura é que a literatura, se quiser, pode desprezar a função comunicativa da linguagem e ater-se apenas à sua função expressiva até chegar a uma poeticidade em que a palavra se torna independente duma necessidade de mensagem. Mas a tradução não pode descurar a função comunicativa da linguagem, nem a procura duma mensagem, por mais que o autor não a tenha lá posto. Afinal, se um tradutor é um mensageiro, como pode haver um mensageiro sem mensagem?
Mas se dissemos antes que a literatura não se faz nem da mensagem, nem da linguagem, a tradução corre o risco de passar ao lado da literatura. Pois corre. Robert Frost disse numa frase lapidar e cruel: “a poesia é o que se perde em tradução”. Todo o meu esforço de tradutora, a bem dizer, é contrariar isto. Eu quero meter a poesia nas minhas traduções. Quero que elas carreguem o que está lá de investimento incomum dum determinado autor (seja de sonoridade, de construção frásica, ou de metáforas como nós na garganta), mas também me sinto grata por meter nelas um esforço de trazer para o outro, fazer chegar ao outro – que pode não estar, que não tem de estar, nas intenções dum autor. Para mim, a maneira como a tradução pode contribuir para a universalidade da literatura não tem a ver com uma inscrição na posteridade tal como a conceberá um autor que se proponha escrever uma obra-prima universal. Tem a ver com um compromisso aqui e agora, com, mais do que criar novas condições de possibilidade (isso é tarefa dos autores), transmitir o mais possível nas condições possíveis.
Uma vez que sou, porém, uma criatura contraditória, e porque tenho por outro lado as minhas ambições de escrita pessoais, resolvi que não ia deixar passar este momento em que também posso fingir que vim ao Correntes d’Escritas por ser um bocadinho escritora, sem apresentar um pedaço de poesia da minha autoria. E até trouxe um que vem bastante a propósito. Primeiro, porque foi feito num encontro com algumas semelhanças com este, embora mal “acomparadas” em benefício deste. Ou seja, não era de escritores maduros como aqueles com quem tenho o prazer de estar hoje, era entre chamados “jovens criadores”. No entanto, tal como neste, trazia a oportunidade dum convívio de boas conversas e boas bebidas no lounge do hotel onde estávamos hospedados, e onde, sendo internacional, se podiam justamente discutir questões como “será que alguém vai perceber o que há de verdadeiramente literário na minha obra passando isto para uma língua franca, ou universal, como o inglês?” Segundo, e relacionado com isto, porque foi pensado também como resposta à tal citação de Robert Frost de que “a poesia é o que se perde na tradução”. Chama-se “Hotel Lounge”, e nele o lounge surgiu-me também como imagem de tradução.

Hotel Lounge

Entre vocês e eu na arriscada
via rápida dos artistas há
um baldio de línguas que se tresmalham
incandescentes queimam os ouvidos
internarmente eu lamento discordar
mas sendo a poesia o que perde
a tradução
haverá então coisas mais importantes
para guardar e eu não vejo
forma outra de sair deste ruído
senão um esforço extremo distendido
no transporte de chegarmos.

Eu lamento discordar
mas para mim são alvos desiguais
ter em vista o chegarmos a outrém
ou escudarmos a perda que se arrisca.

E mesmo assim no lounge do hotel
se enfim depositamos os punhais
no parapeito do balcão, rondamos,
estrangeiros num abrigo, as bebidas
e as pontas de vidas e cigarros,
será jamais possível emalhar nossas
línguas sem que o verso seja lenocínio?
e vão tomar-me por aquilo que eu sou ou
por aquilo que em mim miram ou
pode haver uma outra via de sair
a via em que mudamos ao falar
quando folgamos
o freio do orgulho de ser único?

Embaraça-me, de resto, discordar
dum tão distinto parecer,
e quero mesmo assim agradecer
as lenitivas vias de acedermos
ao encontro provisório ou comunhão
aturdida no terreno transitório
de um lounge no hotel.

Margarida Vale de Gato»



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges