Tesouro ou fardo

Juntam-se pessoas e atrás delas vêm as suas vidas. Atrás delas, não. Com elas vêm as suas vidas. Com elas, também não. Dentro delas. Dentro delas vêm as suas vidas. Assim é que é. Milhares de histórias e de momentos, uns bons, outros maus, outros mais ou menos, um novelo de fios impossíveis de desentrançar. A vida toda enroscada, como um gato ao canto da sala. A vida um tesouro ou um fardo que se carrega no peito, queiramos ou não. E depois uma manhã aparece alguém que nos pergunta por isso que carregamos, esse tesouro que às vezes é fardo, esse peso imenso que às vezes também brilha, e os fios soltam-se. Não todos, só alguns, memórias que são frestas, janelas entreabertas para o passado que se fecham logo de seguida, para não cegarmos com tanta luz ou tanta dor.
Vejamos V. Sou 100% lisboeta, diz ela, nascida e criada entre a Mouraria e S. Vicente. Mas o sorriso de orgulho é coisa breve, esmorece logo que se põe a recordar os primeiros anos, difíceis, tão difíceis que se torna difícil imaginar hoje o difícil que eram. A mãe, peixeira, passava os dias todos fora, voltava tarde, precisava dela em casa, escola nem vê-la, nunca aprendeu a ler nem a escrever, só o nome para o bilhete de identidade. Aos seis anos já cuidava de dois irmãos mais novos, fazia a sopa com feijão esmagado e hortaliça, mais um chouricinho para dar sabor, fruta é que não havia, nunca, moravam todos num sótão, pequeno, apertado, às vezes os irmãos pequeninos viravam-se para ela e suplicavam-lhe, mana, tenho fome, lágrimas agora só de lembrar aquelas vozinhas, e a menina de seis anos deixava-os sozinhos, na casa quase vazia, metia-se rua acima até Sapadores, até ao bairro América, onde umas senhoras lhe davam sempre qualquer coisa, mesmo que fosse só pão. Na idade de irem à escola, os irmãos foram aprender letras e números, seguiram os rumos deles. Ela entrou para um atelier de costura, muita linha, muito dedal, e anos mais tarde as flores, vendidas às freguesas em bancas de rua. Desde o funeral da mãe, há 16 anos, nunca mais os viu, aos irmãos, e não sabe porquê. Não houve partilhas, não houve zangas, só um afastamento que não consegue explicar, uma amargura (dela) do tamanho da ingratidão (deles). Do filho, é melhor nem falar. Aproveitou-se do seu analfabetismo, deu-lhe a assinar papéis que a prejudicavam, deixou-a quase sem nada depois do divórcio, em proveito do pai. E olhe que eu não mereço, que sempre fui uma mulher digna e boa mãe. Embora ele nunca a contacte, V. sabe que o filho mora na Moita, só que a Moita é muito grande.
A história de G. é diferente, quase cómica. Uns sofrem com amor de menos, outros com amor a mais. Nascida numa aldeia perto da Guarda, veio aos 19 anos para Lisboa, em fuga de um namorado que a enganou. Ele andava ao mesmo tempo com uma rapariga de outra aldeia, mas não era homem de desistir. Em troca de 25 tostões, conseguiu que o irmão mais novo de G. lhe desse a morada dela em Lisboa. A trabalhar na casa de uns senhores, à Penha de França, um dia estava à janela a bater tapetes e aparece-lhe ele lá em baixo, na rua, a fazer sinais. Ela ignorou-o. Como o ignorou nas férias, quando voltou à aldeia e ele se punha à porta da casa dos pais a noite toda, impedindo-a de sair para apanhar fresco. Nada parava aquela obsessão. Quando foi para França trabalhar, enviava-lhe cartas e postais. Quando ela se mudou para o Campo Mártires da Pátria, punha-se ao pé da estátua do Dr. Sousa Martins, à espera de a ver passar. Era uma teima: Ou a bem ou a mal, hás-de ser minha mulher. Mas ela nunca cedeu. Anos a fio de resistência até ele desistir. Numa festa da terra, há uns anos, soube que ele acabou por casar com a outra, a antiga, a rapariga da outra aldeia. Aquela com quem podia ter ficado logo na altura. E o que se teria poupado em arrelias e embaraços…
Aos 10 anos, na Guiné, H. tornou-se escuteiro. O meio-irmão comprou-lhe a farda obrigatória, muito cara (150$00), porque sempre tratou dele como se fosse um filho, órfãos que eram os dois do pai verdadeiro. Muito mais tarde, foi guarda-florestal de segunda classe na região de Bafatá. Ainda hoje sabe os nomes científicos, em latim, das árvores que protegia. Era espantosa a flora, ali. Mas também a fauna: leões, javalis, gazelas. Os caçadores não se fartavam daquela abundância. Um deles, português, perdeu numa batida a sua carteira, com tudo lá dentro: documentos, dinheiro, cartões de crédito. H. encontrou-a e devolveu-a, intacta. Gratos, os portugueses deram-lhe um contacto: Se alguma vez precisar. Em 1996, quando aterrou na Portela, magro, quase cadavérico, depois de sete meses sem receber salário, ele precisou. Era na altura em que havia fartura de trabalho na construção civil. Arranjaram-lhe emprego numa firma grande: primeiro a entregar ferramentas aos trabalhadores, depois a fazer betão, depois a pintar. Por muito tempo, foi isso que fez: pintar. Paredes, tectos, fachadas. Só não lhe peçam para pintar uma porta, porque isso não sei, isso não consigo. Aos sorrir, nota-se mais a cicatriz que lhe atravessa o lado direito do rosto, da orelha quase até à boca. Aconteceu no Intendente, numa noite má. Uns rapazolas atravessaram-se no caminho, a pedir dinheiro. Assim que disse que não, um x-acto desenhou-lhe o sangue na cara. Meses depois, a mesma mão matou à facada um homem. E ele nunca mais pôs o pé naquela rua.
I. e M. H. falam menos porque têm vidas mais próximas do tesouro do que do fardo. Vidas sem demasiados sobressaltos, só com aquilo que todas têm: nascimentos, mortes, alegrias, trabalho, tédio, a fotografia de duas filhas no mostrador do relógio. Em várias épocas, fui um bocado feliz, admite I. Ser um bocado feliz: eis algo a que já vale a pena aspirar.

José Mário Silva, com Isaura Almeida, Violeta Quintas, Maria Helena Luís, Gracinda Gregório e Helder Pina, no Centro Social S. Cristóvão

[Texto criado durante o projecto Leitura Furiosa 2013]



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