Todas as cinzas

O homem em queda
Autor: Don DeLillo
Título original: Falling Man
Tradução: Paulo Faria
Editora: Sextante
N.º de páginas: 255
ISBN: 978-989-8093-39-4
Ano de publicação: 2007

Quando finalmente, mais de cinco anos após o embate dos aviões nas Torres Gémeas de Nova Iorque, Don DeLillo decidiu ficcionar a grande tragédia americana que inaugurou o século XXI, houve quem dissesse: “este era um livro inevitável”. Em alguns dos romances anteriores, DeLillo reflectira já sobre o alcance global do terrorismo e fizera alusões ao facto da gradiosidade do World Trade Center apelar à sua própria destruição. Daí ao adjectivo profético foi um passo, exagerado como todas as extrapolações, mas que tornou legítimo esperar-se dele o retrato definitivo do que aconteceu naquela terça-feira funesta.
Essa expectativa vai-se desfazendo à medida que avançamos na leitura de O homem em queda. E ainda bem. Embora enquadre o acontecimento na História com maiúscula, o autor de Underworld não pretende explicar o 11 de Setembro. O que lhe interessa é descrever a forma como aquele horror se infiltrou na vida das pessoas comuns, alterando radicalmente o sentido das suas existências. Se o romance abre e fecha à la DeLillo, com portentosas descrições sinfónicas do inferno nas torres, o resto é música de câmara. A narrativa avança através de uma acumulação de pequenas histórias, breves episódios que ajudam a situar as personagens no mapa nebuloso daqueles “dias do depois”, marcados por uma espécie de atordoamento colectivo.
No centro de tudo está um casal que tenta recomeçar literalmente das cinzas. Ao sair quase ileso da destruição, Keith bate à porta da ex-mulher, Lianne, coberto de caliça e vidros, trazendo apenas consigo a mala de outra sobrevivente, com quem virá a ter um caso que serve apenas para uma catarse mútua. O fulcro do romance é esta tentativa de reconstituição familiar, difícil porque Keith quer esquecer tudo (afundando-se no anonimato dos torneios de póquer) enquanto Lianne não quer esquecer nada (em parte devido ao pânico de contrair a doença de Alzheimer, que levou o pai ao suicídio).
À volta deles gravitam figuras que reflectem de outras maneiras a mesma luz. O filho, de binóculos apontados ao céu, à procura de mais aviões assassinos. Os idosos a quem Lianne ensina escrita criativa, reagindo à desgraça entre o fervor religioso e a abjuração de Deus. Ou o performer que salta preso a um arnês em sítios públicos, imitando a imagem de um homem que se lançou de cabeça para o abismo. Dispensável era a figura do terrorista, Hammad, membro da célula de Mohamed Atta, que surge no corpo do livro como um “estilhaço orgânico”, mas sem comprometer o ímpeto e a beleza triste deste magnífico romance.

falling man

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

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Comentários

One Response to “Todas as cinzas”

  1. manuel a. domingos on Fevereiro 6th, 2008 10:15

    estive no outro dia com este livro na mão para o comprar. gostei do inicio, mas como nunca li nada deste autor pensei não ser este o melhor romance para nele me iniciar. mas depois do que aqui li (e nos posts anteriores) penso que vou comprar.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges