Todos amigos

«Atravessei as vielas de caminho para o casino, passei pela casa de Um-Sami, a modista, abandonada pelo marido que a trocou por uma criada egípcia. Estava a espetar umas agulhas no vestido de uma jovem noiva, cujo casamento iria decorrer numa capelinha ao som da gravação electrónica de uns sinos de meter dó, que arranhava como discos velhos dos anos trinta, e cujo pai tinha aceitado para genro um engenheiro canadiano de meia-idade, e cuja mãe andava atarefada a amassar pão e a juntar cadeiras e a picar salsa para o grande dia e cujo irmão planeava disparar a arma para o ar em honra do desfloramento oficial da irmã e cujo primo a haveria de conduzir, no seu carro polido e comprido, até à igreja e, depois, até ao navio atracado no Mar Mediterrâneo. O mar que está cheio das lágrimas dos faraós, dos destroços dos navios piratas, dos ossos dos escravos, dos afluentes dos esgotos e de tampões franceses.
No lado oposto ao da modista, Abu-Dolly, o merceeiro, abanava e enxotava as moscas para longe da sua cara em direcção às hortaliças apodrecidas. Abu-Afife jogava gamão com o seu sobrinho Antoine. Claude continuava à caça de um marido.
– Não hei-de ser eu! – disse-lhe. – Não hei-de ser eu.
O céu estava de um azul profundo e dele caíam fortuitamente balas e bombas. Olhar para o céu da nossa terra era como ver a morte mergulhar sobre nós – nós, um charco de água numa rua curva, um mar salgado povoado por cantarilhos, uma cama de corda para os rapazes saltarem; nós, umas cuecas bordadas, nas quais uns pés de dedos pintados se enfiam, uma bainha de diamante para uma adaga recurvada; nós…
Ao passar pela casa de Nabila, decidi deter-me e ir vê-la. Ela abriu a porta e quedou-se quieta e calada, apenas respirando.
– Andas outra vez à procura do teu amigo? – perguntou-me.
– Aqui somos todos amigos – repliquei.

[in Como a Raiva ao Vento, de Rawi Hage, trad. de Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Civilização, 2008]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges