Traduzir um poema sobre tradução

No último número da Harvard Review (#33, Inverno 2007), deparei-me com um poema de John Mateer (sul-africano de nascimento, a viver na Austrália) intitulado Translators Are Angels.
Transcrevo-o aqui:

Translators are angels, I whispered
into the ear of my guardian angel in King João Library.
They stand beside us, hearing out thoughts,
only muttering what’s necessary
. Smiling slightly,
listening carefully to the speaker who’d mentioned my name,
she said: We are perfect nobodies; nameless,
voiceless, winged incandescence, except when we’re bad
.
Then she turned to me: Like now, if I don’t tell you what he said

Mal acabei de ler o poema, senti logo vontade de o traduzir. Em primeiro lugar, porque é um poema sobre a tradução e os seus equilíbrios precários, escrito em inglês, logo sujeitável à tradução que tão etereamente evoca. Depois, porque tudo indica que a língua incompreensível para o poeta seja o português, como se depreende pela referência à biblioteca do “King João”, que só pode ser a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (mandada construir em 1717 por D. João V).
Traduzir para português o poema equivale de certo modo a fechar o círculo. E foi isso que fiz, embora sem asas nas costas:

Os tradutores são anjos, segredei
ao meu anjo da guarda na Biblioteca Joanina.
Ficam junto a nós, ouvindo o que pensamos,
apenas murmurando o essencial
. Com um pequeno sorriso,
enquanto escutava atentamente o orador que referiu o meu nome,
ela disse: Somos perfeitos desconhecidos; anónimos,
sem voz, uma incandescência alada, excepto quando somos maus
.
Virou-se para mim: Como agora, se não revelar o que ele disse

Comentários

14 Responses to “Traduzir um poema sobre tradução”

  1. Blogtailors - Paulo Ferreira on Janeiro 22nd, 2008 13:35

    José Mário,
    julgo que foi o Manuel Alegre que disse que os tradutores são subversores (”Sub-versores”), e a tradução subversão (sub-versão).

    Abraço.

    • Ruy Ventura on Janeiro 22nd, 2008 15:38

      Zé Mário, considero a tua tradução muito bela, pois sabe respeitar um poema também ele muito belo. A maior angústia dos tradutores é no entanto a do caminho para a fidelidade, sempre procurada mas nunca atingida.

      • Jorge Braga on Janeiro 22nd, 2008 16:25

        SOBRE A TRADUÇÃO DE POESIA

        Zbigniew Herbert

        Como um abelhão desajeitado
        pousa numa flor
        vergando o frágil caule
        abre caminho com os cotovelos
        através duma fileira de pétalas
        através das folhas de um dicionário
        quer chegar
        onde se concentram a fragrância e a doçura
        e embora esteja constipado
        e sem gosto
        continua a tentar
        até que a cabeça choca
        contra o pistilo amarelo

        e não consegue ir mais longe
        é tão duro
        forçar a coroa
        até chegar à raiz
        por isso levanta voo
        emerge pavoneando-se
        zumbindo:
        eu estive lá
        e aqueles
        que não acreditam nisso
        olhem para o seu nariz
        amarelo de pólen

        Tradução de Jorge Sousa Braga

        Got something to say?





        Leia os últimos textos publicados
        «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges