Três histórias minúsculas de José Carlos Fernandes

ABRIL

Abril, já dizia o Poeta dos Três Leopardos Brancos, é o mais cruel dos meses. Para lhe sobreviver é preciso ser mais cruel ainda: magoe profundamente a pessoa de quem mais gosta.

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JULHO

Já Julho é um mês propenso a descalabros. Desfaça-se quanto antes das acções que adquiriu com base em recomendações insensatas, afaste-se de torres, campanários e miradoiros, evite subir escadas e escadotes, mesmo que seja para uma operação aparentemente tão inócua como substituir uma lâmpada fundida. Claro que as viagens aéreas são vivamente desaconselhadas. Mais vale permanecer com os pés firmemente assentes na terra até que comece um novo mês. Nem os que possuem asas estarão a salvo da força da gravidade, pois o calor excepcional que se fará sentir alterará drasticamente a consistência da cera.

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AGOSTO

Se adormecer ao som da água corrente, poderá ver-se mergulhada num estranho sonho: está suspensa no oceano, a algumas dezenas de metros de profundidade; abaixo, muito abaixo, por entre o negrume, cintilam miríades de pontos luminosos que se movem sem cessar. Um peixe-lua aproximar-se-á e explicará «são os peixes abissais, que esperam, esfaimados, por uma presa», «não gosto deste sonho, quero acordar», «para isso é necessário que me beijes», responderá o peixe. Ansiosa por sair daquele sonho inquietante, assentirá (os lábios do peixe-lua serão inesperadamente quentes e suaves), porém, nada acontecerá: continuará a pairar no oceano. Do peixe-lua, nem rasto. Lá em baixo, as luzes parecem agora mais próximas.

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[in O que está escrito nas estrelas [anos I & II], Tinta-da-China, 2008]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges