Três poemas (ainda) inéditos

recreio

Caruma, raízes escuras, manchas
de luz entre as árvores. Enquanto
ali estávamos o colégio era um
vulto branco a arder ao sol,
lugar de gramática e geografia,
salas onde a voz do ditado
ecoava e a que nem sempre
queríamos regressar. Às vezes
a tarde imobilizava-se quando
partíamos pinhões com pedras
aguçadas e sentíamos nos dedos
a textura da resina. Jogávamos
à bola com pinhas, usávamos
cuspo para limpar o pó dos sapatos
ortopédicos, esfolávamos joelhos
– rituais infantis como tantos outros,
condenados à nostalgia.

insones

Fumam à janela, o vento frio
desfaz o fumo, os dedos tremem.
Não sabem uns dos outros,
espalhados pela cidade, mas
procuram as luzes ainda acesas
noutras casas. Noite dentro,
o silêncio dos que dormem
é uma afronta, desleixo pueril
de quem consegue ignorar
as facadas do tempo, a areia
entre os dedos, o sobressalto.

magnum opus

Um verso apenas – ou menos ainda.

[in luz indecisa, Oceanos, 2009, em breve numa livraria perto de si]



Comentários

10 Responses to “Três poemas (ainda) inéditos”

  1. mvgato on Março 3rd, 2009 1:01

    olha… também tem Poe :)
    And I hold within my hand
    Grains of the golden sand-
    How few! yet how they creep
    Through my fingers to the deep,
    While I weep- while I weep!
    O God! can I not grasp
    Them with a tighter clasp?
    O God! can I not save
    One from the pitiless wave?
    Is all that we see or seem
    But a dream within a dream?

    beijos

  2. José Mário Silva on Março 3rd, 2009 14:40

    Por momentos pensei que te referisses ao terceiro poema, mas o Poe era tudo menos contido.
    :)

  3. joane on Março 4th, 2009 3:16

    fui ao mar
    apanhar búzios
    cheguei a casa
    em cima da mesa os “púzios”

    não quer juntar este à sua nova “obra”?

  4. José Mário Silva on Março 4th, 2009 16:37

    E isso é o quê, joane?
    Uma “provocação”?

  5. ricardo on Março 6th, 2009 14:30

    muito bommmmmmm

  6. Ana Almeida on Março 8th, 2009 4:23

    a sua poesia está ao nível de muito daquilo que vais escrevendo por aqui: má, muito má.

  7. Ana Almeida on Março 8th, 2009 4:24

    a sua poesia está ao nível de muito daquilo que vai escrevendo por aqui: má, muito má.

  8. José Mário Silva on Março 8th, 2009 10:19

    Obrigado pela sua opinião, Ana Almeida (e pode tratar-me por tu, não se acanhe).

  9. treis on Março 9th, 2009 23:58

    ruiuiuiuijkjjkjkjjkjkkijijijuiui
    kkmkjkjkijij

  10. leal maria on Setembro 10th, 2009 1:36

    Não concordo nada com a Ana Almeida! Estes dois poemas são muito bons pela linearidade objectiva das memórias do autor. Evitou, sem grande esforço, a metáfora e deixou que a memória de cada um de nós (leitores) substânciasse também a essência das palavras.
    Confesso que a poesia me cativa muito quando recorre às rimas não forçadas.
    Mas cada vez mais vou apreciando esta prosa poética.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges