Três poemas alcoólicos de Malcolm Lowry

OS BÊBADOS

O ruído da morte está neste bar desolado
Onde a tranquilidade se senta inclinada sobre a sua oração
E a música abriga o sonho do amante
Mas quando moeda alguma compra este fundo desespero
Nesta casa tão solitária
E de todos os destinos o mais solitário
Onde nenhuma música eléctrica destrói o bater
Dos corações duas vezes quebrados mas agora reunidos
Pelo cirurgião da paz no peróneo da desgraça
Penetra mais profundamente do que os trompetes
O movimento da mente que aí faz a sua teia
Onde as desordens são simples como o túmulo
E a aranha da vida se senta, dormindo.

O ÚLTIMO HOMEM NO DÔME

Onde está o sublime bêbado? Será o grande bêbado?
Este pequeno mistério imponderável
Perturba-me sempre à meia-noite:
– Para onde foi, para onde levou a sua caneca?
Para onde foram eles, os meus amigos, os que não têm porto?
Já não se lamentam nos bares, já não se fazem ao mar;
Um estremecimento da vontade e então podem sonhar,
Vivendo enfim as vidas que sempre ansiaram –
Intermináveis corredores de botas para lamber,
Ou no fim de todos eles o Pope com a sua biqueira.
Onde estão os teus amigos, seu tolo?, só te resta um,
E também esse já te enjoa –
Embora muito menos que os outros; e isto sei muito bem,
Uma vez que sou o último bêbado: bebo sozinho.

UMA ORAÇÃO

Deus, dá de beber a estes bêbados que acordam ao amanhecer
Balbuciando sobre o peito de Belzebu, destroçados,
Espiando uma vez mais, através das janelas,
A vaga e terrível ponte quebrada do dia.

[in As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, seleccionados e traduzidos por José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 2008]

Comentários

Got something to say?





Leia os últimos textos publicados
«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges