Três poemas cinéfilos de Pedro Mexia

VIDA DE CRISTO

No improvisado salão paroquial
velhas cadeiras desalinhadas anunciavam
um filme sobre «a vida de Cristo».
Éramos crianças, veraneantes,
figueirenses, crianças comungantes
mais ainda sem tormenta e com os adultos
curiosos ou tomados de fastio
fomos, oito da noite, para a vida de Cristo.
Mas alguém trocou os filmes
ou espalhou carnavalesco engano,
e logo na primeira bobine entendemos
que não era a Palestina
que o facho de luz poeirento projectava
no écran tão amador
que só podíamos chamar pantalha.
E aos poucos entrámos na narrativa.
Vera Cruz, western heráldico, napoleónico,
quase operático. Morria gente
(que ressuscitava fora de campo)
e houve quem achasse que não sendo sobre
Cristo era uma fábula imprópria
antes de dormirmos.
Mas o acampamento estival das crianças
tomava partido, vitoriava,
abraçava com braços pequenos
o efeito de alienação, as sombras humanas.
Julgo que brilhavam no fim
os nossos olhos infiéis,
belicosos, inimigos de Maximiliano.
Esvaída para sempre a surpresa, a pureza,
o motim de fascínios, a noite clara.
Nunca mais foi a mesma, a vida de Cristo.

***

CINEMA FECHADO

Cinema fechado, melancólico
o arrumador, portões
a cadeado, ruído abafado de matinés,
fria a rua, de lado a lado, a cena
em cinemascope restaurado
mas a memória no negrume horizontal,
premeditado, das barras.

***

REBEL WITHOUT A CAUSE

Duas infâncias passaram
por mim: uma, no planetário,
com o espanto dos astros.

Outra, com Sal Mineo,
que no seu mundo ansioso
vislumbrou a eternidade.

[in Poemas com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, 2010]



Comentários

5 Responses to “Três poemas cinéfilos de Pedro Mexia”

  1. luis on Dezembro 30th, 2010 21:44

    má poesia!!não entendo como, com tão boa poesia que se faz,
    este pedro mexia aparece tanto!!

  2. leal maria on Janeiro 1st, 2011 20:05

    Luís, na alta finança e no grande empresariado funcionam as coisas assim: todos são accionista das mesmas empresas e distribuem-se por elas como administradores numas e como comissão de remunerações noutras. Depois é só haver reciprocidade entre eles e todos ficam a ganhar. Faz agora a extrapolação para o “mundo” da poesia. Funciona igualzinho! E concursos literários? É estar atento aos júris constituídos nuns e noutros. eh eh E para ser claro, o mesmo se passa neste blog, que não deixando de ser excelente, pela divulgação literária e espaço de encontro de muitos que é, o facto do seu “mantedor” ser autor de livros, o põe, na minha óptica, demasiado permeável à “forçada” divulgação de quem lhe pode dar oportunidades de divulgação da sua própria obra, independentemente da qualidade. É a minha opinião e como tal subjectiva e apenas a mim me vincula. Mas é reler com cuidados redobrados, os “poemas” deste post e melhor entenderás o que digo.
    Chamar poemas a estes textos vulgaruchos?? Por amor de… Mário Silva! Paulatinamente, vais estragando uma coisa boa que crias-te. Mas, para te dizer a verdade, tivesse eu um blog com o + prestigio que este granjeou e nas circunstâncias em que te encontras, não sei se seria eu também imune a essa tendência. Ou talvez me subestime… na minha vida em tre a opcção de me quebrar ou torcer, preferi sempre a primeira.
    Mas há testos do Mexia que são muito bons.

  3. leal maria on Janeiro 1st, 2011 21:24

    erros meus, que de tão clamorosos, merecem a errata:
    em-tre) quis escrever: entre
    Testos) quis escrever: textos

  4. isabel ribeiro on Janeiro 2nd, 2011 0:41

    Levei. :)

  5. José Mário Silva on Janeiro 3rd, 2011 17:00

    leal maria,

    As escolhas que faço neste blogue não são permeáveis a nada nem a ninguém. São escolhas minhas. Apenas. Estou no direito de gostar dos poemas de Pedro Mexia, como outras pessoas estão no direito de os detestar.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges