Três poemas de Ana Luísa Amaral
CONSTELAÇÕES
Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
história, constelações
de sons e gestos
Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos
Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seicentista
que ofuscando-se: o sol
Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste
ENCENAÇÕES E QUASE VOOS
Uma luz construída
ilumina
esses santos,
cada um sem o halo,
mas pombo circundante
na cabeça
São quatro santos no cimo
da igreja,
e cada um dos pombos escolheu
a face mais marcada,
os caracóis de pedra
que fossem mais macios
Talvez não sejam santos,
mas apóstolos, tão de barroco,
e o seu gosto a vestir:
um excesso de desvio
quase pecado
Apóstolos ou santos,
os pombos circundantes na cabeça
são halos delicados
que, julgando-se em céu,
vêem quase metade da cidade,
a meio: o rio e os telhados
de casas
Fingindo-se de mão a abençoar,
são adereço de um teatro
inteiro:
caos encenado
ou um perfil egípcio
E os caracóis solenes e sombrios
convidam ao pecado
e convocam-me aqui: noite de verão,
a liquidez do olhar:
Eu não poder,
em pedra,
abrir as asas
UMA COISA SEM TÍTULO E APÓCRIFA
Um Moisés
decepado
segurando nos dentes
bordão curto demais
para nascente
Um arbusto tão curto
que o seu fumo crescesse
para logo morrer
e nunca mais
Luminosas partículas de pó,
Abraão sem sequer
a dádiva de
sonho
Espaços de projecção como em cinema,
partículas de pó iluminadas:
o invisível pó que se respira em vão
em desertos de fé,
salas vazias
E uma coisa sem título
e apócrifa
nem sequer hora sexta
mas uma
(tão prosaica)
da manhã
[in Se fosse um intervalo, Dom Quixote, 2009; um livro que chega às livrarias na segunda-feira, dia 14]
Comentários
9 Responses to “Três poemas de Ana Luísa Amaral”
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Mas que raio de poesia é esta!? Que pretende a mulher ao escrever isto? Será que desta incontinência de palavras tiramos um pensamento; uma perspectiva coerente de ver as coisas ou, somente são palavras que, nascidas de divagações sem nexo, preencheram uma folha em branco!? Não valia a pena ter profanado a alva cor da dita…
Tu Mário, és muito dado ao pedantismo. É pena, porque devias ter como critério os teus poemas: não sendo de um brilhantismo por aí além, comovem pela simplicidade fotográfica que nos invoca. Agora isto??
Viva o Rei de Espanha Juan Carlos de Borbon
Este é o nosso futuro chefe de estado, nosso Rei Juan Carlos de Borbon.
Portugal esta entregue aos bichos e maricas.
Temos uma oportunidade única, acabar com o estado Portugues, e nos tornarmos em uma provincia do GLORIOSO REINO DE ESPANA.
Nunca deveriamos ter nos tornado em País, maldito seja DOM AFONSO HENRIQUES até aos quintos dos infernos.
Quero aqui deixar meu repto; abandonemos a nacionalidade portuguesa e no transformemos em ESPANHOIS ORGULHOSOS.
Bem haja a todos.
iberiaportugalespanha.blogspot.com
Quando vejo comentários como o da leal maria, fico logo com a pulga atrás da orelha. Hmmmm, isto deve ser dor de cotovelo de um poeta medíocre. Como há link, uma pessoa vai lá e confirma as piores previsões.
Um exemplo:
«mas que estou eu para aqui a dizer?
já me apetece ir nessa fuga que fizeste tua!
oposto a nós vem, solitária, uma mulher,
deixa-a para mim, a ver se esta noite ainda a ponho nua…
quem sabe não tenho sorte com esta luz reflectida pela lua;
que até me faz mais favorecido;
eu até sou bem parecido…
e forte como um touro!
e na cama alguém já me confidenciou ser a minha arte ouro!
nem sabia o que queria ela dizer com isso.
mas também não é preciso! »
Ainda bem que a leal maria «profana a alva cor da dita [folha em branco]» para nos oferecer pérolas como esta.
Please.
Pois, anónimo… Citando-o: “please”
não é a leal maria e sim o leal maria
E já que te interessou o poema, aqui vai ele sem amputações:
Variações divagatórias para um desesperado
que pretendes nessa fuga para onde vais?
se calhar o porteiro nem te deixará entrar…
sem companhia será difícil!
ao menos aborda alguém antes de lá chegares.
podes até fazer promessas de amares…
nunca se sabe se não será outra alma cansada de solidão
e nessa circunstância te dê sem hesitar a mão.
sei lá… talvez peça que lhe pagues um vodka com laranja.
mesmo que não tenhas dinheiro suficiente, na altura alguma coisa se arranja!
em todo caso, melhor é embrenhares-te no abismo com companhia.
podeis até dissertar acerca da vã glória da poesia.
e quem sabe, a conversa não venha a resvalar para o sexo…
afinal, os grandes encontros começam com monossílabos sem nexo!
que pretendes nessa fuga para onde vais?
órfão de ti, sentes-te como se tivesses perdido os pais.
absorto, são-te inócuas as minhas palavras.
batem na tua indiferença e caem por terra…
posso até jurar que dentro de ti vêm sons de guerra!
uma guerra sem trégua e fratricida.
não matarás porque não és de natureza homicida!
tudo o que queres é encontrar-te no preciso ponto onde te perdeste…
onde te faltou o chão e julgas-te que morreste.
mas procuras-te e em tudo te desencontras…
a loucura até já te faz ver promessas de amor nos olhares desprovidos de vida dos manequins das montras!
que julgas encontrar quando não houver mais possibilidade de fugida?
duas opções são postas à tua disposição:
o absoluto nada de uma morte fingida,
ou levantar-te e cingir firme o gládio na mão.
mas nada tenho com isso!
é-me fácil dos problemas alheios manter-me omisso.
o mundo será sempre o que foi:
algo a que nos agarramos mesmo quando dói!
ciosos da nossa mesquinhice…
esquecidos do que outrora fora-mos antes de sermos o que agora somos.
despreocupada meninice…
o principio do caminho que tomamos mas cujo ao seu final nunca fomos;
porque entretanto alguém nos abordou
e, no meio da conversa, esquecemos a original intenção e o sonho abortou.
mas que estou eu para aqui a dizer?
já me apetece ir nessa fuga que fizeste tua!
oposto a nós vem, solitária, uma mulher,
deixa-a para mim, a ver se esta noite ainda a ponho nua…
quem sabe não tenho sorte com esta luz reflectida pela lua;
que até me faz mais favorecido;
eu até sou bem parecido…
e forte como um touro!
e na cama alguém já me confidenciou ser a minha arte ouro!
nem sabia o que queria ela dizer com isso.
mas também não é preciso!
podemos sempre optar por ouvir o que somente nos enobrece…
palavras há que, aos as ouvirmos, nos apodrece.
e um bocadinho hoje e outro amanhã,
far-nos-á cadáveres e cumprir-se-á o que prometeu Jeová:
que os descendentes de Eva morrerão por ela ter trincado a maçã!
a Eva que (vi numa gravura) até era uma cachopa jeitosa,
(bem sei que não se deve falar assim de uma mãe, mas sou ateu)
fez o Adão de morcão com o seu jeito de dengosa.
e com isso foi expulso do paraíso que deus outrora lhe prometeu.
mas deixemos isso por agora,
e vamos-nos embora
rejeitastes estes espaços e levaste-me a fazer o mesmo…
quando me embrenho em algo levo tudo a esmo!
inclusive a morte!
só ainda não a logrei agarrar porque ela anda com sorte…
fui à guerra a ver se lhe sentia o gosto,
só tive pena de estar fora do país no mês de Agosto.
por causa das miúdas giras em bikini na praia.
mas em Sarajevo há também cada catraia!
e digo-te ponto por ponto
em nenhuma me pus a troco de algum conto.
comigo só há permutas de corpos e sentidos.
senão tivera eu muito mais que os já tidos;
e com o euro estaria na ruína!
para mais com esta gripe suína…
ou é das galinhas?
más furtunas as minhas…
já não sei a quantas ando!
no fundo, já vou a teu mando…
mas à superfície sou ainda eu, porque me chamei e a mim me respondi.
só os lugares por onde andamos ainda não os reconheci.
por certo perdemo-nos no desespero…
o objectivo que levamos tu o sabes, não sabes!? Eu espero…
aaah! pouco me importa!
era a coisa já torta!
e eu que comecei por te falar,
com o intuito de à perdição te resgatar…
estou à deriva de tanto divagar.
aaah… já me lembro!
para onde vais? Foges de alguém ou algo?
em todo caso o destino não é mais que a aleatoriedade das sortes.
nada do mundo esperar só nos faz ainda mais fortes…
imunes até à desesperança!
Importante é o caminho porque o objectivo nunca plenamente se alcança.
leal maria
A poemas destes a incontinência é intencional e não tem outra pretensão do que ser um mero jogo de palavras.
Mas faço referência aos poemas do Mário. Porque não os procuras e vês que pode-se fazer poesia e ser o minimamente objectivo no que se quer transmitir.
Mil desculpas senhor Leal Mania (aproveito a anterior deixa do anterior anónimo) , não me parece ser este blog um espaço para quaquer tipo de discussão pessoal e, muito menos para vir o senhor aqui dar lições sobre poesia… Não assinasse eu Blimunda e entenderia o quão rídiculo poderia isto ser… Já agora, escrever “Que pretende a mulher (…)” é no minimo a total ausência de educação, goste ou não dos poemas. Chama-se Ana Luisa Amaral – a “mulher” – e, goste ou não, merece respeito. By the way… Acho que tenho melhores coisas a fazer ao meu tempo do que ler o seu post ate ao fim. Continue a escrever que ainda chega ao Nobel.
O Sr Luís Leal, não deve ter dormido de facto. Deve estar a roer os cotovelos, e se for ler toda a obra, já realizada até agora pela grande poeta Ana Luísa Amaral, ficará sem os cotovelos, joelhos.
Que a inveja o consuma Sr. Leal, seja-lhe leal, pois ser justo nela que investe suas forças e fúria. À bela arte da poesia, o senhor nada dedica além de versos de gosto duvidoso e conteúdo pouco abaixo do mediocre. Lamentável.
Deixa a arte da poetica a quem lhe conhece os caminhos, e estes caminhos e mesmo inspiração…mais uma vez lamento, o Leal desconhece por completo.
Au revoir
P.S. Ao Nobel não chegará, falta-lhe nobreza e dignidade…Nem mesmo praticando chega lá!
liberdade de expressão
tristes são as palavras
quando as habita a vacuidade
escravas de quem nada tem ou sabe dizer
são largadas em anárquica liberdade
destinadas a definhar no limbo das frases sem sentido
onde acabarão por morrer
com o argumento de recusarem todo o espartilho
negligenciam dar-lhes o necessário rumo
que límpido e claro
não lhes ofuscasse o brilho
semear frases não é levantar paredes a fio de prumo
não se corta uma oração a meio
só para lhe dar a forma de poema
como se a poesia fosse um ressequido seio
e nos nutrisse sem a suavidade do fonema
toscos
assanham-se por toda a critica contrária
solícitos a pôr o ferrete da inveja
são pedantes na sua posse de eminência luminária
castram-se de toda a crueza com que se deseja
masturbam a alma em segredo
porque ínfima a substância
há que ter delicadeza
ciosos guardiães de um degredo
vivem para cá dos Homens
contaminados de tanta e tanta pureza
heróicos sobreviventes do aborrecimento
barricados atrás de uma pseudo cultura
vão moendo o mesmo sentimento
na esperança de lhe fazer surgir algo parecido com ternura
deixemo-los comprazidos nos seus rituais onanistas
são agora ubíquos e máximo denominador comum
depois de tantas conquistas
no terreno da liberdade há sempre lugar para mais um
leal maria
Para quem é tão cioso na defesa de uma poetiza, quando somente se lhe critica determinados poemas, fica aqui um dos muito belíssimos (felizmente a maioria da sua antologia) poemas que fez germinar e nos fala das múltiplas e incógnitas possibilidades. Comovente também a perene referência à filha. Amor incondicional que é talvez a maior virtude da humanidade. Segue o poema:
“A verdade histórica
A minha filha partiu uma tigela
na cozinha.
E eu que me apetecia escrever
sobre o evento,
tive que pôr de lado inspiração e lápis,
pegar numa vassoura e varrer
a cozinha.
A cozinha varrida de tigela
ficou diferente da cozinha
de tigela intacta:
local propício a escavação e estudo,
curto mapa arqueológico
num futuro remoto.
Uma tigela de louça branca
com flores,
restos de cereais tratados
em embalagem estanque
espalhados pelo chão.
Não eram grãos de trigo de Pompeia,
mas eram respeitosos cereais
de qualquer forma.
E a tigela, mesmo não sendo da dinastia Ming,
mas das Caldas,
daqui a cinco ou dez mil anos
devia ter estatuto admirativo.
Mas a hecatombe
deu-se.
E escorregada de pequeninas mãos,
ficou esquecida de famas e proveitos,
varrida de vassouras e memorias.
Por mísero e cruel balde de lixo
azul
em plástico moderno
(indestrutível)”
ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê, Quetzal Editores, Lisboa, 1999: 46, 47
Espero que compreendam diante deste belo poema, a minha perplexidade perante os fracos poemas que o Mário publicou da Ana Luísa Amaral.
EU CRITIQUEI OS POEMAS ACIMA PUBLICADOS!!
aah.. já agora aproveito para que os solícitos defensores da Ana sejam consequentes com as virtudes que apregoam e me dêem a possibilidade de lhes escrutinar a escrita. É ver que adjectivaram a minha escrita de medíocre, tendo inclusive, transcrito parcialmente (e consequentemente descontextualizando-o) um dos meus poemas. Não havia essa necessidade: se procurassem tinham encontrado tantos…
Mário; desculpa andar a ocupar este teu excelente blog com estas trincas. Mas sabes como é: quem não se dói não é filho de boa gente!