Três poemas de António Osório

MORGUE

Um rosto quase de criança,
robustas mãos de operário.

Calmo sobre a pedra.
Náufrago dormindo.

Esses abutres que rasgam,
medem, pesam
e escrevinham,
não registam
o sangue
já enegrecido,
nem a mortal,
a fétida exalação.


CAMÕES

Lia-me Camões meu Pai.
A tristeza de ambos
se juntava, em mim crescia.
E a voz, a inalterável
mergulhia das palavras
procriavam sarmentosos liames.
(Basílico a Mãe depunha no lume,
a carne com alecrim perfumava).
O livro de carneira negra,
as letras juntas em oiro:
morros, alusões, muros
verdentos, o último da vida ouvia.
Mordaça invisível. Em lágrimas,
minhas, de meu Pai e de Camões, voava.


O CANTO DO CISNE

Nunca o ouvi.
Que seja inextinguível.
Ou então silencioso
por pudor e tremendo
de raiva.
E que dure o bastante
para que nada fique por cantar.

[in A Luz Fraterna – Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009]



Comentários

One Response to “Três poemas de António Osório”

  1. Luciane on Novembro 23rd, 2009 21:33

    Hermoso, poema!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges