Três poemas de Eucanaã Ferraz
OS IRMÃOS
Felicidade, era o que era.
Após uns poucos dias fora
de casa, retornar e correr
em direção ao ipê, abraçá-lo
como se abraça um amigo
alto e áspero, um avô.
E era como se ramos e flores
os reconhecessem, eu imagino,
e sabe-se lá o que pensavam
àquele instante os dois meninos,
ou se não pensavam nada
e sentissem apenas a pele rude
daquele carinho imóvel. Montanhas
moviam-se lentamente na luz,
lagartos iam e vinham rápidos
como raios. Era mais certo
que os dois meninos não pensavam
coisa alguma, embora àquela hora
fechassem os olhos como quem pensa.
Ou por isso mesmo não pensavam,
porque fechavam os olhos como quem
apenas descansa. Além disso,
eram crianças, e ainda mais inconscientes
quando abriam os olhos para o alto
e viam
a copa derramar-se convexa
em milhões de júbilos, vozerio
de lâminas, estrelas e dragões.
A árvore enlaçada, nem percebiam
que seus pés
esmagavam morangos selvagens
que se estendiam rasteiros, miúdos
em torno do imperador amarelo.
E gritavam, e riam, selvagens
eles também, selvagens o cheiro,
a sombra, a alegria,
o sol
muito azul de Friburgo.
VERDE-CLARO
Coroa, manto, brasão
e cetro, pousa.
Minúsculo,
só, nenhum exército.
Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.
Não sei que nome tem,
insigne inseto,
senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.
O ATOR
Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
[in Cinemateca, Quasi, 2009]
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